trechos e estilhaços de uma mente que abrasa

Gonzo journalism, auto-retratos e uma reserva adequada de pensées em francês pros dias chuvosos.

Natalie Anne Sutherland

Escritora. Artista plástica neo-expressionista. Fire Yogi.

O amor segundo Stendhal

Balzac dizia que Stendhal “escrevia para seus contemporâneos de inteligência já realista” Ele faz uma análise fina sobre os sentimentos e as emoções, é marionetista de subjetividades e da aura de uma época.


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Stendhal escrevia com as emoções a flor da pele, como se tivesse uma menininha de 12 anos dentro dele, mas para contrapontear: com a destreza e habilidade de um juiz da alta corte. O Balzac o denominou um “gênio”. Ele foi um dos grandes romancistas e ensaístas do século 19, um dos percursores do naturalismo, e um tremendo observador do comportamento humano.

Perguntaram a Stendhal certa vez em Paris, qual que é sua história de vida? Sentado no parque, num banquinho, ele pegou um galho que tinha caído de uma árvore e começou a escrever nomes na terra escura, perto de onde a grama não crescia mais: Béatrice, Florence, Eugénie e escreveu mais ou menos sete nomes de mulheres. Nomes de paixões, nomes de amores que não deram certo – porque ele acreditava que as paixões eram a verdadeira soma da vida dele.

O amor não tinha funcionado convencionalmente para o Stendhal. Ele não se casou, não teve filhos. Mas ele escreveu muito, 38 obras – metades dessas póstumas. Ele tinha uma geografia moral muito peculiar. Ele odiava a França, especialmente Paris, mesmo vindo de uma família rica, talvez especialmente por causa disso. Ele acreditava que os Franceses estavam vivendo em uma época sem paixão e com muita vaidade. Talvez um excesso disso.

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Conforme lemos nos romances de Stendhal, ficará muito claro que a paixão reina feroz no coração dele. O Napoleão e o Rousseau são os grandes heróis do Julien por exemplo, o protagonista do Vermelho e o Negro. O Napoleão representa uma França passional e pra frente, mas é incomum que um escritor do século 19 tenha escolhido um ídolo e o mencionado tantas vezes como fez Stendhal. O mesmo acontece quando Robespierre é citado nas obras. Parece que Stendhal cultivava uma época quando as pessoas eram mais impulsivas e desaforadas.

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Em “Do Amor” ele critica os franceses pela falta de habilidade no jogo do afeto. Ele os culpa por não serem tolos o suficiente. Para ele, se há humilhação, está dando certo no amor. Na concepção dele, em um país onde há perigo, e risco de morte, sempre haverá grandes personalidades, caráter, ardores, entusiasmos e ímpetos! Ele parece odiar a boa criação, etiqueta e ordem. Ele brinca que na Espanha e na Itália as pessoas nunca saem para passear, ou flâneur – porque são muito passionais, o sangue borbulha! Stendhal até admira as mulheres escocesas, pela meiga melancolia que elas aparentam ter.

Em uma nota peculiar, ele foi o primeiro depois do Montaigne a falar de uma maneira cômica sobre assuntos tão íntimos, os chamados “fiascos” – a impotência. Ele reclama que sentou com cinco amigos e todos chegaram a conclusão que nunca tinham vividos um amor realmente fogoso. Que essa chama nunca tinha sido acesa.

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O que é realmente maravilhoso em Stendhal é que ele une a delicadeza do século 19, com um desejo eterno (que é único dele como escritor) de voltar à brutalidade da idade média. Ele cria uma tensão entre a formalidade e a sinceridade. E isso ressoa não só nos ensaios, mas também no Vermelho e o Negro. Os dois amantes que querem largar tudo para viver um amor proibido. Existe em Stendhal uma imensa habilidade de escrever e pensar durante um capítulo inteiro sobre a mão delicada de uma dama, e depois mandar todos os personagens para a guerra em um piscar de olhos sem perder o ritmo. Como todo grande escritor, Stendhal captura o gênero e o subverte. Ele se torna amigo íntimo do leitor, e ao mesmo tempo é marionetista de subjetividades e da aura de uma época. E isso o Holden Caufield do “O Apanhador no Campo de Centeio” dizia era “a marca de um autor genial, que quando você termina o livro, você quer ligar para o escritor e ficar horas pendurado no telefone, conversando”

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Eu sinto que todos que tiverem o privilégio de ler uma obra dele, vão sentir essa intimidade que eu sinto, essa vontade de trocar confidências, essa necessidade de bater papo sobre as paixões, ardores, amores torrenciais e lamentar o que não foi. Porque é no "lamentar o que não foi" que a catarse vem.


Natalie Anne Sutherland

Escritora. Artista plástica neo-expressionista. Fire Yogi..
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