trechos e estilhaços de uma mente que abrasa

Gonzo journalism, auto-retratos e uma reserva adequada de pensées em francês pros dias chuvosos.

Natalie Anne Sutherland

Escritora. Artista plástica neo-expressionista. Fire Yogi.

Outono no parque

Outono chegou e o parque do bairro se esvazia. A mãe solteira leva seu filhinho embora. Os idosos da ginástica esquisita voltam para o asilo. As minas fitness postam o último selfie. As criancinhas e as babás vão se dissipando no ar frio.


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Respirei fundo e finalizei em lótus. Um ventinho frio que sinalizava a chegada do outono vindo do oeste secava o meu suor. Fiquei ali durante uns dez minutos, acredito, um belo de um mantra tocava em full blast no ipod e o meu olhar se manteve fixo porém em mero esboço na grama e nas formiguinhas desconexas, só curtindo o Sol pós yoga, meditativa. Feliz e contemplativa comecei com a rotina de enrolar o meu tapete azul claro.

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Todo dia no parque é a mesma coisa. Desde que comecei a praticar yoga no começo do verão até agora, no começo do outono. Sempre tem um senhor que caminha em volta de mim. Não é exatamente em volta, é em volta do espaço, mas sinto que ele faz questão de chegar perto de mim e do meu tapetinho. É o senhor tarado, inadequado. É assim que chamo ele. Toda vez eu que faço yoga, ou estou deitada no tapete lendo ou fazendo um desenho, só percebo no final porque estou totalmente concentrada, mas por ser uma mulher muito – vamos dizer: intensa, quando percebo esse olhar dele, a minha vontade é de usá-lo como alvo no arco e flecha. Minha vontade é de berrar absurdos porque aquele olhar dele me dá nojo.

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Mas o que posso fazer? Ele deve incomodar a mãe solteira também. É sempre a mesma mãe. Ela é bem bonita por sinal. O filho dela é espertinho, um dia até veio até a mim e o meu tapete para tentar ler o meu livro e pegar no meu caderno de desenhos. Ela tem um jeito de quem está de boa com a vida, porque é dona de um sorriso sereno e um olhar ameno, e parece que se abre para o filho com um colo acolhedor. Não a vi usando celular uma vez o verão inteiro, ela presta atenção na cria, mas ao mesmo tempo não presta, entende? É quase como se ela deixasse ele se descobrir no mundo (o parque), mas se algo acontecesse ela chegaria lá em um milésimo de um segundo para defendê-lo. Acho que o carrinho vermelho que fica nas escadas é deles, sempre passo na saída. Dou uma espiada e vejo lanches naturais e roupas extras na bolsa de tecido eco-friendly.

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Nos dias de muito sol os idosos saem em massa para os exercícios esquisitos. Eles saem com as roupitchas mais estranhas também, pique aquele povo que vai nos Sescs. Deve ser uma mistura de tai-chi com uma dança ou sei lá, não entendo. Só sei que todo mundo se diverte e eles são todos sorrisos. A postura deles é perna aberta e flexionada e os movimentos são lentos. Deve ter haver com o fluxo de energia. Todos estão hiper protegidos do sol, cabelo grisalho ou branco titânio protegido debaixo de um chapéu que compraram em um gift shop da última viagem a Miami ou Minas, óculos escuro over-sized, e um tênis que nunca a venda em loja alguma. Típico de vovozinhos. Os velhinhos de classe média em parques são os mesmos no mundo inteiro, eu penso.

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Um mês atrás comecei a perceber que as folhas estavam caindo das árvores. Caindo como a neve, de uma forma leve, bonita. Até fazia um reflexo quando batia no Sol. Daí semana passada vi pombinhos encolhidos na grama se escondendo do frio. A manhã nem estava tão gelada, mas era um pressentimento do porvir. Os idosos nem ficaram muito tempo fazendo o tai-chi peculiar, o tarado também não prevaleceu. Acho que a mãe solteira nem apareceu. As minas fitness começam a faltar no treino já no meio de fevereiro. Nem aguentam o carnaval. Por isso nem falei delas, aliás, o que falar além que elas tiram selfies e usam roupas que combinam? Nesses dias percebi que até os insetos se manifestaram com a mudança de tempo. As moscas minúsculas brancas, aquelas que só aparecem no verão mesmo, apareceram como se para dizer adeus, flutuaram em volta do meu tapete e de uma planta bonita que cresce do chão – memórias do que foi esse verão no parque; encapsuladas na nuvem insetuosa, esperança que o espaço ficará dormente no inverno. Esperando o próximo verão. Com a mesma dinâmica, as mesmas pessoas e promessas e experiências.


Natalie Anne Sutherland

Escritora. Artista plástica neo-expressionista. Fire Yogi..
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