trechos e estilhaços de uma mente que abrasa

Gonzo journalism, auto-retratos e uma reserva adequada de pensées em francês pros dias chuvosos.

Natalie Anne Sutherland

Escritora. Artista plástica neo-expressionista. Fire Yogi.

Pós Montanha Mágica do Thomas Mann

A fé no humanismo e na literatura realista restaurada, um novo olhar sob as artes e uma vontade imensa de gritar “Alemanha!” porque o Thomas Mann conseguiu – é o melhor romance de todos os tempos.


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Thomas Mann é considerado um escritor realista, o que é de acordo com frase da professora Szabolcsi “obras de arte que evocam os traços essenciais" e “Espelham as tendências básicas da realidade social, utilizando as máximas possibilidades de consciência social da sua própria época”; além disso, o típico escritor realista “acredita ser capaz de abranger o mundo, em sua totalidade ou em suas partes, a partir de um ponto de vista externo, compreendendo lhe as relações”. Mas o tipo de realismo que identificamos em Mann é diferente: a totalidade almejada por ele é irônica, ele usa os personagens centrais para frisar a consciência da crise da tradição na qual se ancora; uma história de um personagem que está coming of age (amadurecendo), e a solidificação da Primeira Guerra Mundial.

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Desde os primeiros romances dele, existe um clima de decadência, a potência dele está na percepção da proximidade da finitude e esgotamento. Ele é reconhecido pelas descrições embasadas em cores: um sujeito está doente, ele fica amarelado. Um dos temas centrais da Montanha é justamente o Tempo, e quem discute o Tempo, logo descobre que ele não é só infinito, mas que nós morremos e nós sofremos. E no sanatório em Davos existe uma multitude de cores e descrições para ilustrar a fragmentação da própria alma. Mann discute a tradição humanista fervorosamente, com a mezzo-verborragia filosófica dos personagens Settembrini e Naphta, que apontam de forma incessante pela busca de uma formação cultural, por uma reflexão sobre uma experiência que permite amadurecimento de valores e morais e um intelecto formado.

Para ser um pouco mais leve: Muitos ensaístas consideram esse processo de Mann problemático, mas a Montanha é considerada um dos melhores romances de todos os tempos, com certeza é o melhor que eu já li. Depois de terminar a minha edição monumental (perdão) de mais de mil páginas eu gritei "Alemanha!”.

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Percebi, sem conhecer a história de Mann, que a Montanha tinha elementos autobiográficos, espirituais, tem partículas de uma alegoria intricada. Fiz muita alusão a Proust, do pouco que considero que sei, porque há um momento singelo em que o Hans Castorp descreve uma memória única, preciosa, de ter pedido um lápis emprestado na época escolar, e sem estragar a história, ele guardou as lascas em uma gaveta durante vários anos, de quando apontou o objeto. É essa ação de inquietude da alma descrita e uma tranquilidade estética, a paixão pelos momentos perdidos, a noção do Hubris! Um verdadeiro momento Proustiano, em um romance alemão! Isso faz o Mann ao longo da Montanha se consagrar o autor que melhor descreve as tempestades, dúvidas e acertos do coração humano.

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Em outra cena, em que o sanatório ganha uma vitrola, depois de ter discutido com o leitor (isso é importante deixar claro, o leitor sempre se sente no aconchego com o Mann e com os personagens, como se você estivesse no sanatório com eles, na espreguiçadeira, com o edredom, ou na mesa dos Russos, fitando a Mme. Chauchat incessamente) as maravilhas das músicas e áureas a disposição, nós temos uma visão do Hans ouvindo-as sozinho, depois que todos os pacientes foram dormir. Só assim algumas formas de arte são apreciadas, em solitude. Com um romance que dura sete anos, e uma inimizade que culmina em tragédia e suicídio, Naphta resume tudo "verdadeiro é o que convém ao homem" posso dizer que concordo com Mann, é uma obra que teria que ser lida duas vezes. Mas dentro dela, ao contrário do que o Lukács dizia, vocês poderão encontrar o sentido da vida.

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Eu encontrei pureza, entre areia e neve, para quem vai ler o livro, delicadeza e resquícios de tempestade e ímpeto, todos na espreita, uma terrível guerra à vista.


Natalie Anne Sutherland

Escritora. Artista plástica neo-expressionista. Fire Yogi..
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