tributo ao caos

Palavrar é libertar

Aline Valadares

Escrevo melhor que falo, mas não tenho nenhum livro publicado. Tenho um bom humor, mas não quando estou de TPM. Costumo me expressar escrevendo e fotografando, mas nem sempre sou boa nisso. Estou acabando com o curso de jornalismo antes que ele acabe comigo

Uma série para chamar de minha

Girls me fez recalcular a rota. Superar perdas. Investir na minha sinceridade.


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Sinceramente, eu não lembro exatamente do dia que eu resolvi me envolver com essa coisa que é acompanhar uma série. Eu sempre tive resistência porque não tenho paciência para assistir pela tela do computador e também pela preguiça de baixar, ajustar a legenda, passar tudo para um pendrive e, finalmente, deitar para me distrair com histórias aleatórias. Era mais fácil pegar um livro e começar a ler – tão mais simples, não? Só sei que eu fui praticamente convencida a baixar Girls, uma série da HBO.

Um amigo veio na minha casa e me ensinou o “caminho das pedras”. Ele disse: “Não tem erro, Aline. Todas as temporadas estão aí nesse site para baixar”. Pareceu que era coisa de destino, de atração espiritual, como acontece com o Santo Daime que, ao ser ingerido, a pessoa “inicia um processo de autoconhecimento, que visa corrigir os defeitos e melhorar-se sempre, aprimorando-se como ser humano” – a explicação é do Wikipédia.

Lembrei que uma ex-colega de trabalho havia comentado comigo: “Assista Girls. É sua cara!”. Lembro que na época cheguei a procurar para baixar, mas só tinha online. Eu não conhecia o site que posteriormente foi indicado pelo amigo supracitado. Eu resisti a zumbis, a serial killers e a prisões irreconhecíveis para uma pessoa nascida no Brasil. Eu precisava de identificação direta. Precisava ser sugada com aquilo que mais me impressiona: a vida real. E não bastava a vida real que eu não alcançasse. Precisava ser uma série sobre os dilemas mais triviais, ditos de forma direta, crua, e, sem pudor, por favor.

Uma terceira pessoa, desta vez uma amiga, me falou que eu precisava ver Girls porque uma das personagens se parecia comigo. Ou eu com ela, não sabemos ainda. Aí a curiosidade bateu com força. Perdi a preguiça e baixei logo as duas primeiras temporadas – aloka. Virei até uma espécie de pregadora da palavra do senhor, que nesse caso, é a senhora Lena Dunham, criadora de Girls. Sai perguntando para várias pessoas se conheciam a série e, sem pedir licença, começava a falar de sua história numa tentativa falida de cooptar novos telespectadores. Eu não tinha experiência com séries. Alguém poderia ter me avisado desse comportamento invasivo. Como devem imaginar, a essa altura eu já terminei todas as temporadas. Aproveitei minha insônia recorrente por alguns dias, escolhi uma personagem para ser e, na companhia da minha irmã, eu ri, chorei, vibrei, me decepcionei, me declarei, me humilhei e me magoei.

Caso alguém aí já tenha visto a série e esteja curioso para saber qual “power ranger” eu escolhi pra ser, eu conto: foi Hannah Horvath, que é interpretada pela criadora da série. Ela é ingenuamente egoísta, delicadamente sincera, firmemente carente, obsessivamente desencanada, enfim, ela é controversa e tem os sentimentos à flor da pele. Tudo isso dentro de uma história cheia de crises e conflitos, tal como é a vida, parceiros.

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Eu não quero efeitos especiais ou carnificina para me surpreender. Eu quero a vida cruel como é e leve como deve ser. Eu quero conhecer histórias parecidas no formato e diferentes nos rumos. Aí, a série vai e ACABA. Aonde já se viu uma sacanagem dessas? Dizem por aí que terá a quinta temporada, mas eu, uma usuária recente desta droga, descobri que séries são lançadas de ano em ano. Como pode? Por isso, eu peço ajuda para encontrar uma série que supra essa minha abstinência. Preciso de mais uma série para chamar de minha. (TE CONVENCI A ASSISTIR GIRLS?).


Aline Valadares

Escrevo melhor que falo, mas não tenho nenhum livro publicado. Tenho um bom humor, mas não quando estou de TPM. Costumo me expressar escrevendo e fotografando, mas nem sempre sou boa nisso. Estou acabando com o curso de jornalismo antes que ele acabe comigo.
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