tributo ao caos

Palavrar é libertar

Aline Valadares

Escrevo melhor que falo, mas não tenho nenhum livro publicado. Tenho um bom humor, mas não quando estou de TPM. Costumo me expressar escrevendo e fotografando, mas nem sempre sou boa nisso. Estou acabando com o curso de jornalismo antes que ele acabe comigo

A deusa e o cobiçado

Esta é uma crônica (ou qualquer outro gênero literário, ou a mistura de vários) que antes de existir já tinha nome, título não, nome.


Sobre ela e ele. Ela, a deusa. Ele, o cobiçado. Ela nem tão deusa assim e ele nem tão cobiçado assim. Acompanhando os dois, uma história sem-pé-nem-cabeça, nem tempo, pouco tempo, muito tempo, contratempos, tempos loucos e desordenados. Outrora colegas de sala, de instituição. Não mais.

O acaso os juntou, para não dizer um aplicativo de celular – o que torna tudo menos poético, mas também nem tão patético como dizem. Se antes eram desconhecidos respirando o mesmo ar, agora foram vítimas, melhor dizendo, foram réus do match.

Aquela sensação nova, nova motivação, novos interesses, novas descobertas, novas vontades. Reciprocidade. Querências mútuas. Cancela, cancela. Uma mancada. Uma primeira mancada. Que tipo de pessoa apareceria com uma mulher de mãos dadas? O cobiçado. Pareceria loucura dizer que era ciúme. A deusa usou seus poderes divinos. Passou, passou. Uma nova chance, ou talvez, o alinhamento dos astros. Eles - os astros - estavam os colocando à prova. Com certeza foi isso. Teve até eclipse e bigmoon vermelha naquele mês. Aliás, era novembro. Dezessetedenovembro.

[Flashback Dezessetedenovembro]

Seleção brasileira em campo, juiz apita no meio-de-campo, bola rolando, mancada resgatada, o cobiçado passa a bola: “você sentiu ciúmes?”, a deusa driblou, driblou de novo, que tipo de pessoa faz uma pergunta dessa no primeiro encontro?, escanteio, passa a bola, ciúme não, sentimento desconhecido, mentira, ciúme sim, riem, não entendem nada, a deusa não entende nada, nada de futebol, nada do cobiçado desconhecido, impedimento, explica, impedimentos, alguns. Beijo surpresa - GOL. O Brasil ganhou? No quarto/na sala. Pra ela, beijo no quarto. Pra ele, beijo na sala. Um encontro, um encaixe, mãos geladas, voz trêmula, quente, aquecendo, ervas, maltes. Poderia o mundo estar explodindo. O primeiro beijo infinito. Dois corpos quentes, frios, choques térmicos. Não vai – vou. Não vai – vou. Não vai – vou. Foi. Ela nunca pediu mais de três vezes. Poético demais? É a deusa que vos escreve. Releve.

[Fim do flashback Dezessetedenovembro]

Foi e voltou. E voltou de novo. Ficou por mais uma noite. Depois por duas. Trocas, música, muitas músicas, sintonia e mais uma vez descobertas. Que momento lindo este das descobertas. Festas públicas - sozinhos, festas particulares – juntos. Ganja, cervejas diferentes. Pausa para deixar claro o que não pode. Entrega, sorrisos, beijos, abraços, uma ligação sobrenatural, corações armados e moles. Como pode? Fizeram tudo errado, mas deu tudo tão certo. A deusa e o cobiçado sabiam qual era a melhor parte, não perdiam um segundo do desfrute. O templo da deusa era o refúgio dos traumas passados, se abriu e se fechou também. Acostumados com o controle emocional. Acomodados com a recuperação de águas passadas. Mal sabiam a quantidade de água que já estava rolando.

Foram dias de mistérios, conhecimento de ambos, autoconhecimento, sangue, dor, sangue, dor, perda provocada, dor psicofísica.

Entre eles, só existia uma certeza: O limite.

Ela entendeu o limite do limite. Para uma amante das dimensões do mar, o limite lhe parecia sufocante e desestimulante. Insistiu, continuou, mergulhou sozinha na imensidão de ilusões que criou em conjunto. Apesar de errar ser uma peculiaridade humana, a deusa - que não era tão deusa assim - também errou. Mentiu. O cobiçado, que na realidade é mesmo bem cobiçado, seguirá sendo cobiçado, desta vez sem a deusa. Que, pra falar a verdade, é uma deusa sim! The_Dead_of_Venus.jpg


Aline Valadares

Escrevo melhor que falo, mas não tenho nenhum livro publicado. Tenho um bom humor, mas não quando estou de TPM. Costumo me expressar escrevendo e fotografando, mas nem sempre sou boa nisso. Estou acabando com o curso de jornalismo antes que ele acabe comigo.
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