tudo é relevante

até que se prove o contrário

Fabio Bortolazzo Pinto

Fabio Bortolazzo Pinto é professor de Literatura, Comunicação e adjacências. Também é meio dispersivo e curioso - às vezes no limite do desconfortável.

A mim importa

É fundamental falarmos sobre o que é relevante. É fundamental falarmos sobre. É fundamental falarmos. É fundamental. Ainda que não pareça.


Dizer que tudo é relevante é o mesmo que dizer que nada é relevante.

Daí a armadilha que (não) se esconde no nome que escolhi para este espaço.

Os seres humanos constroem seus conceitos de relevância a partir de um acervo particular de memórias, de vivências e de necessidades a serem supridas. De modo que, não sendo minhas memórias, minhas vivências e minhas necessidades iguais às suas - e, a rigor, às de qualquer um -, afirmar que tudo é relevante é, certamente, pretensioso.

Mas não totalmente.

Permitam-me: o que estou afirmando ao dizer que tudo é relevante é que tanto as minhas quanto as suas memórias, vivências e necessidades são, ao mesmo tempo, relevantes e irrelevantes.

A coletividade é composta de indivíduos e, no fim das contas, temos em comum a mania de pensar, o que nos leva a questionar, a entrar em crise e a sair de nossas crises através de soluções provisórias que nos permitem, na melhor das hipóteses, partir para a ação.

É preciso ter alguma ideia das consequências de nossas ações para decidir em que momento e em que plano se dará a saída de nossa condição estática.

Em outras palavras, se nos tornamos agentes e tomamos as rédeas da existência, tentando suprir as necessidades e sair das pequenas e grandes crises e responder às pequenas e grandes questões que nos atordoam, selecionaremos, intuitiva ou racionalmente, dentre todas as opções de entendimento à disposição, as que são relevantes.

Que ações são relevantes para mim, no que elas consistem, que diferença fazem no contexto em que estou inserido?

Neste momento, escrever essas linhas é relevante.

Encontrar as palavras certas para dialogar com você é relevante.

"Nós não podemos mais conversar um com o outro", disse o Senhor Keuner a um homem. "Por quê?” perguntou o surpreso. "Em sua presença, já não me ocorre nada de razoável", lamentou-se o Senhor K. "Mas não me importo em absoluto", consolou-o o outro. "Isto eu acredito”, disse o Senhor K. amargurado, "mas a mim importa"

Posso não ter dito aqui nada de razoável, mas, sim, conversar com você, importa.

Até prova em contrário.

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Fabio Bortolazzo Pinto

Fabio Bortolazzo Pinto é professor de Literatura, Comunicação e adjacências. Também é meio dispersivo e curioso - às vezes no limite do desconfortável. .
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