tumulto

a gritaria do ser, da multidão e do coração.

Gabriela Gallas

Vivências e experiências.. Tudo muda e tudo é questão de ponto de vista. Dos tumultos que assolam meu ser e dos que assolam o mundo, talvez se leve algo ou talvez se tornem mudos..

Sobre ser mulher expressando-se no filme Ninfomaníaca

O polêmico filme Ninfomaníaca, de Lars Von Trier, dividiu as pessoas entre as que amaram, as que odiaram, e as que pensam como uma amiga minha: “uma putaria heterossexual”. A verdade é que esse filme mostra diversos lados do patriarcado, expressados na personagem principal, revelando a questão do ódio ao seu corpo, o problema que é sua sexualidade e como viver em conflito com valores morais impostos.


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Primeiramente, analisemos o filme: é a história de uma moça, chamada Joe, que foi encontrada no chão de um beco (não tem localização no filme de onde se passam todos os eventos) com muitos ferimentos por um homem chamado Seligman. Ele a leva para sua casa, onde lhe provém cama, comida, chá e um pijama. Ela então, o confia para contar sua história, desde o seu nascimento até o momento atual, cheia de tabus e pudores, envolvendo sua vida sexual, na qual ela revela que é ninfomaníaca, e no meio dessa história ambos fazem associações com temas muito presentes, tal qual religião, símbolos, música, etc.

O ponto a que eu quero chegar é que, ao longo de todo o filme - muito bem filmado, com jogos de luzes e cores muito presentes -, é questionada a sexualidade de uma mulher que mantém relações sexuais com diversos homens ao longo de sua vida. Joe demonstra certa vergonha de tudo o que fez e acha que Seligman irá julgá-la pelos seus atos e por quem ela é, ou seja, pelo que ela representa no contexto social atual. Ela é uma mulher, que corta todos os laços de tabus e de conceitos morais que a sociedade impôs, como trair o marido, ficar com os esposos de outras, praticar sadomasoquismo, abandonar o seu filho, fazer sexo com vários homens em uma noite e em todos os dias da sua vida, não se importar com os sentimentos de ninguém a não ser o seu desejo sexual latente, não odiar sua vagina e não achar que estivesse fazendo isso errado. Joe questionou e botou em cheque muitas coisas importantes para a sociedade atual. Ela se colocou em uma posição de enfrentamento pelo simples fato de ter uma doença que a impede de cultivar esse tipo de sentimento, e questiona se isso realmente é uma doença.

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Somos, enquanto mulheres, impelidas desde a infância a odiar nossos órgãos sexuais. Odiamos nossa vagina, não podemos encostá-la, e sempre que essa parte do corpo nos despertava curiosidade, alguém vinha e dizia: “tira a mão daí, menina! Irá cair se você continuar mexendo.” Ao longo da vida adulta, não gostamos de nos tocar e sentimos nojo desse órgão que possui um cheiro muito característico e que sangra todos os meses. Sentimos medo de encostar ali, de sentir prazer ali, porque essa parte de nosso corpo é tida como “suja”. Ela é aquilo que possui pelos, e que serve somente para fazer sexo algumas vezes, mas sem importar se estamos realmente sentindo prazer com esse sexo ou não. Nós também fomos ensinadas a odiar nosso corpo de maneira geral, não gostamos do tamanho de nossos seios, da nossa bunda, odiamos ter barriga, estrias, celulites. O nosso rosto precisa ser modificado, colocar maquiagem, fazer limpeza de pele. E se isso não está de acordo com o que a sociedade impõe como padrão de beleza, nós nos sentimos vazias, feias, gordas, acabadas. Isso reflete em como nos portamos e em como vemos e lidamos com a vida em geral. No filme, essa analogia é muito clara: Joe desde pequena descobre o seu órgão sexual, e o utiliza para o seu bem-estar e o seu prazer.

Em nenhum momento se vê a protagonista reclamar de como é o seu corpo, e ela não o modifica de nenhuma maneira. Ela o ama, pois ele é quem o proporciona diversos momentos de êxtase e prazer profundos. O sexo, seja ele com quem for e mesmo que seja com diversos homens ao mesmo tempo, é o que a faz se sentir bem. A personagem o faz de acordo com o que acha que é bom, não está interessada se sua vagina tem um cheiro ou um gosto ruim para os homens. Ela ama sua vagina. Isso está expresso claramente no momento em que ela se reúne com as outras amigas em um lugar para praticar esse rito de busca de prazer sexual juntas, e todas possuem um tipo de ‘frase de inspiração’, que é: ‘mea vulva mea máxima vulva’, e também no momento onde faz terapia em conjunto com outros “viciados em sexo”. Joe não está interessada se os homens possuem prazer com o seu sexo. Ela está interessada em buscar satisfazer esse desejo latente que assola o seu ser, e pratica atividades sexuais para isso.

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Além disso, não se importa com convenções sociais. Casamento, tanto o dela quanto o dos outros, não importa muito. Importou quando ela descobriu uma pessoa que amou, porém sempre foi livre pra se relacionar com quantas pessoas quisesse. Joe arruinou casamentos de outras pessoas, largou seu filho, e inclusive seu “marido” para buscar um tipo de prazer. Fato esse que muitos homens fizeram e fazem todos os dias. Quantos homens conhecemos que largam suas mulheres e filhos porque encontraram outras mulheres? Quantos traíram suas esposas? Quantos quiseram largar uma vida monótona em busca de sexo, drogas e rock and roll? Diversos. E isso não é questionado. É normal, é instintivo, é do homem. A mulher, sempre submissa em sua posição de dona de casa, mãe, cozinheira, lavadeira, empregada, assumindo cargos exploratórios e difusos, é ao mesmo tempo, fiel ao seu marido. E se não for, é julgada de diversas maneiras, até marginalizada em seus ciclos sociais por “não ser uma pessoa honesta”. Joe vem pra retratar isso. Quiseram tratar sua condição de ninfomaníaca como uma doença. Ela resiste, e mostra que se ela for doente, todos os homens que se relacionam com ela também o são. Os homens que largaram as mulheres ao longo do filme mostram o paradoxo com ela ter largado sua família em busca de prazer.

O filme representa a vida de uma mulher que renunciou à convenções sociais estigmatizadas. Que sofreu por fazer isso. Que questionou toda a sua vida pensando se estaria certa, mesmo vendo todos os homens à sua volta apenas responderem e muitas vezes fazerem o mesmo. Se perguntou porque era tão diferente das outras, e isso foi um fardo para ela. Foi um fardo até o momento final, até ser encontrada na sarjeta. Mais que ser mulher, ela foi uma mulher que não agiu como gostariam que ela agisse, ela descobriu todos os lados do sexo, ela SE descobriu como pessoa, como mulher. Mostrou que não importa com quantos homens ela praticou atividades sexuais na vida, se não se interessa em fazer com algum, não o fará, e que seu corpo serve apenas para a satisfação própria e não de outrem – vide última parte do filme. E essa foi a melhor mensagem que o filme podia passar. Todas nós iremos sofrer as consequências de não agir de acordo com o patriarcado. Mas talvez um dia todas nós estaremos libertas caso façamos isso.


Gabriela Gallas

Vivências e experiências.. Tudo muda e tudo é questão de ponto de vista. Dos tumultos que assolam meu ser e dos que assolam o mundo, talvez se leve algo ou talvez se tornem mudos...
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