ululatus

Uivos do lobo impressos na cabeça de elefante.

Matheus Morais

Gritos do lobo por querer ser um el phante.

Mulher não é gente não

Mulher não é gente, era pra ser mas acabou tendo que se tornar algo maior. Na verdade, ainda se trata de gente, mas como dito, transcendeu, passou a ser diva, vênus, saturno, musa, não era tal ideia mas tornou-se pela aura revolucionária que vestiu enquanto rasgava os ditos patriarcais.


10724826_1201006376582511_1692853342_n.jpg Saky, fotógrafa. // @selenesimmons

Ora, mulher.

Tal “ora” pode ser por vir de um suspiro em uma palavra de três letras ou de oração, prece, para a mulher, da mulher também.

É causado um estranhamento diante de como tudo se ocorreu, mulher, de fato, veio pra ser gente, gente como o homem e também igualitário a qualquer outro animal – que não somos todos, tão diferentes, seja pela consciência, inconsciência, poder e afins que dizem nos distinguir, visando uma síndrome de especialidade – veio primeiro, pois alguma necessidade de luz tinha de ter diante do escuro, veio primeiro para dar à luz, dar o corpo para parir luz, o primeiro homem foi mulher, com certeza.

Mulher hoje em dia tá longe de ser gente e complica-se porque tem de andar lutando a tempos e tantos tempos para tornar-se gente mas não, não, tornou-se mais. Não em sentido quantitativo ou qualitativo. Tornou-se. È mais do que qualquer ser. As meninas são revolucionárias como nenhum outro foi e agora não tem mais forma de ser só gente, transcendeu de alguma forma para um outro patamar tão alto que é diva. “Diva” que provem do latim e tornou-se deusa, deus, independe. Independente.

De tantas cores, preta, branca, vermelha, amarela, transparente, chocolate, castanha, pintada de vitiligo, defeituosa. De tantos olfatos, morangos, colônias pop, suor, sushi, creme, maquiagem, pó. De tantos sabores, amargo, doce, salgada, agridoce, velha, nova, chocolate, creme, sushi, indizível. De tantos tatos, leve, pesada, calosa, áspera, melada, pesada, arrepiante, arrepiada, rápida, ágil, pantera. De tantos olhos, verdes, azuis, pretos, castanhos, azuis-verdes, verdes-azuis, castanho escuro, preto-castanho, olhos de fotografia, olhos de olhar, castanhos-azuis. De tantos ouvidos, chorosos, agudos, grossos, crianças, filhos, não-filhos, tornados filhos, música, voz, gritaria, silêncio, som de silêncio.

Intuição é de todos mas é tanto delas.

artwork_images_180756_375830_helena-almeida.jpg Helena Almeida, artista plástica

Teve de ir rasgando os pedaços das saias, rasgando os pedaços das calças aos poucos pra poder mostrar pernas, desde os pés as coxas, não por sexualização ou exibicionismo, pra gritar com o corpo “mas olha só, eu sou diferente, mas não tanto”, trata-se sim de menos roupa, trata-se de menos roupa para o que foi vestido em seus corpos que aperta até a alma sem ser elas mesmo que escolheram. Não trata-se de menos, trata-se de um mais que grita.

Frida Kahlo, Marie Curie, Nina Simone, Fernanda Montenegro, Regina Casé, Petra Costa, Elena Costa, Suicide Girls, sua mãe, minha mãe, mãe de nossas mães, dona Josefa, Tia Nézia, Amanda, Camila, Bárbara, Paola, Leticia, Ana, Nina, Thaís, as trans, a moça, a gaivota, a gorda, a dona, a tiazinha, a imaginária, a magra, a inexistente, a platônica, haja mulher para ser mulher.

Tem mulher que é tão mulher que se precisar é mais homem que homem, mais homem que daquele estigma de forte, a maioria é, Rita Lee já dizia que é mais macho que muito homem, ela andava certa sendo a ovelha negra. Quando pequeno e daí um pouco crescido me achava extremamente sortudo por ter nascido homem-hetero por poder amar as mulheres com todos os aspectos possíveis, incluindo então os afetivos e sexuais, mas aí depois um tanto mais crescido descobri que as mulheres também podiam amar as mulheres da mesma forma que eu gostava de admirá-las, tanto para os homens também, mas aí eu já estava perdido em um mundo que não foi escolhido por mim, mas que eu adorava. Nunca passou pela minha cabeça o entendimento da diminuição das gurias que os homens fazem, fizeram e ainda vão tentar e infelizmente conseguirem fazer. O leite materno que pode sair de quem nasci, só poderia vir de mulher, um elixir que me mantinha vivo, a barriga que me criou no sentido divino, a vagina que me trouxe a um mundo complexo.

tumblr_mjr5p3CboQ1qiafm7o1_500.jpg Helena Almeida, artista plástica

Ora, homem, para as mulheres.

Mulher é gente sim, é a gente, é todo mundo, só que por causa de gente, da gente, teve que se tornar algo mais, não sei de quê, provavelmente de algo inefável que as palavras pouco conseguem sustentar por isso não é dito, mas ainda assim mais.


Matheus Morais

Gritos do lobo por querer ser um el phante..
Saiba como escrever na obvious.
version 4/s/recortes// @obvious //Matheus Morais