um abraço para o mundo

A vida é uma porta sem tranca e uma janela sem tramela

Frederico Tomazetti

Nasci Gaúcho, fui adotado por Minas Gerais, programado computadores para ganhar a vida e escrevo para alegrá-la.

Se a natureza te deu duas pernas, nada mais justo andar sobre duas rodas

Se você tem pressa, vá de avião, se quiser apreciar a paisagem, vá de carro ou de ônibus, agora se você quiser fazer parte da paisagem, não pense duas vezes! Vá de motocicleta.


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Depois de deixar para trás a estrada duplicada que sai da capital mineira em direção ao Rio de Janeiro, entramos em uma pequena cidade com seus prédios antigos e charmosos com janelas de madeira e em poucos minutos estamos em uma estrada simples, com pouco movimento e muita curva, paisagem exuberante, visual privilegiado de quem está dentro de um capacete em uma pequena motocicleta 250cc e com a esposa na garupa.

O destino, UBÁ-MG. Mas por quê? Porque naquele dia haveria um show de rock aberto ao público em uma praça da cidade, só e não apenas por isso.

Viajar de motocicleta é algo totalmente fora dos padrões de uma viagem comum, de carro, ônibus ou aviões, realizada por pessoas que buscam comodidade, conforto, levam coisas inúteis na bagagem e principalmente estão com uma pressa enorme e inexplicável de apenas “chegar”.

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A primeira coisa que você aprende ao pegar uma motocicleta para viajar é o “desapego”. Você olha atentamente tudo o que pretende levar consigo, cada objeto, roupa ou badulaque inútil, pergunta a si mesmo: Vou precisar disso? Olha para a motocicleta, ela tem um pequeno baú atrás onde cabem dois capacetes e mais nada. Os capacetes irão nas respectivas cabeças e neste momento você percebe claramente que nunca foi uma pessoa desapegada quando pensa seriamente em levar um travesseiro para a viagem.

Após a lição de desapego você montou uma mochila pequena apenas com o estritamente necessário para passar dois dias fora de casa para duas pessoas e fica admirado em ver que tudo o que você precisa coube naquele pequeno bauzinho e sobrou até um pouco de espaço para trazer um souvenir de lembrança.

A segunda lição é o não-consumismo, você não levará em mãos, sequer uma garrafa de água, se der sede você pára no meio do caminho, estica as pernas, bebe uma água em algum restaurante na beira da estrada, come alguma coisa simples e deixa o seu lixo na lixeira do estabelecimento. Nas diversas paradas para descansar o corpo você verá inúmeros objetos de artesanato, muita bugiganga a disposição por um preço que cabe no seu bolso mas não cabe no seu bauzinho de viagem, o máximo que você vai levar é uma fotografia no seu celular ao lado de alguma estátua, de um praça, uma casa antiga ou do povo que lá está. Você economizou alguns trocados e espaço na sua sala de estar, a estátua da águia esculpida na madeira ficou apenas na fotografia, não no meio da sua casa.

No caminho, entre as montanhas, pequenas cidades, povo simples e tranquilo onde a vida passa de forma mais gostosa do que na agitação dos grandes centros, em uma parada para almoçar você estaciona sua motocicleta ao lado de outra fabricada em 1984, em perfeito estado de conservação e mentalmente você volta lá na sua adolescência e lembra que seu tio tinha uma moto igualzinha aquela e te ensinou a pilotar nela, foi a primeira moto que você pilotou na vida. O dono da pequena e antiga 125CC está ali no mesmo restaurante, você conta sua história, ele conta a dele e ainda pergunta se quero dar uma volta para matar a saudade. As lembranças já valeram a pena, não foi preciso pilotar a pequenina 125 para matar a saudade. A viagem segue, as paisagens mudam, surpreendem, você e a esposa não estão minimamente preocupados com a quilometragem nem com o relógio.

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Você já percebeu que quem viaja só de carro, ônibus ou avião, sempre pergunta primeiro: “Quanto tempo de viagem você gastou?” Esta é a típica pergunta de quem não está preocupado em “ir”, quer apenas chegar e pronto. Geralmente eu respondo: Não sei quanto tempo levou a viagem, eu fui de moto! Quem viaja de moto apenas quer ir, sabe que irá chegar, mas o que importa é o caminho e o destino é apenas uma consequência.

Esta é a grande lição, com uma motocicleta, você desapega, deixa o consumismo de lado, entende que a pressa é algo inútil, a vida é realmente frágil e você tem obrigação de cuidar bem dela, a paisagem vale mais que o relógio e tudo o que você viu, ouviu, presenciou e viveu, ficará para você no melhor porta-retratos que existe: As boas lembranças da vida!


Frederico Tomazetti

Nasci Gaúcho, fui adotado por Minas Gerais, programado computadores para ganhar a vida e escrevo para alegrá-la..
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