um abraço para o mundo

A vida é uma porta sem tranca e uma janela sem tramela

Frederico Tomazetti

Nasci Gaúcho, fui adotado por Minas Gerais, programado computadores para ganhar a vida e escrevo para alegrá-la.

Minha religião é a poesia

Neste mundo, onde todos explicam tudo, onde qualquer conceito lógico e racional está na palma da sua mão e a dois cliques de distância, a poesia continua sendo o que sempre foi, um sentimento, uma beleza abstrata que depende de sua alma e não do seu conhecimento para ser absorvida sem nunca precisar ser entendida.


pergaminho.jpg

Nasci em família tradicionalmente católica, fui batizado alguns dias depois de nascido com direito a manto branco, vela e padrinhos. Segundo testemunhas da época eu aprontei uma choradeira danada na hora da água na cabeça. Já era um aviso que não era bem isso que eu estava querendo para mim.

Ainda menino mas sem poder mandar muito no meu destino fiz a tal da primeira comunhão, a força, mandado por meus avós, contra minha vontade. Nunca gostei de ir à missa, aqueles rituais, doutrinas e dogmas não soavam como algo verdadeiro para mim.

Na adolescência quando já tinha um pouco mais de domínio sobre minha vontade, resolvi ser “ateu”, em nada acreditar e para ajudar deixei o cabelo crescer, aprendi tocar guitarra e meu quarto era repleto de posters de bandas de heavy metal, com direito a posters diabólicos e imagens infernais. Afinal, qual adolescente que não quer ser “do contra”?

Por influência da minha mãe conheci algumas denominações da umbanda e um livro de Chico Xavier que falava da lei de ação e reação, foi onde começei a conhecer a doutrina espírita. Aquelas colocações faziam sentido, ali havia algo lógico, racional e verdadeiro. Por muitos anos estudei, atuei, trabalhei, fui palestrante e membro ativo da doutrina codificada por Kardec, que em sua essência, trata de um compêndio sobre ciência, filosofia e moral.

Mas as pessoas conseguiram transformar a doutrina em religião e aos poucos me afastei, pois religião para mim é sinônimo de medo, culpa e ganância. Prometo explicar esta colocação em outro artigo para não tirar o foco do assunto.

Em determinado momento eu estava estudando o idioma espanhol e como exercício da língua peguei poemas de Pablo Neruda, poeta Chileno muito conhecido no Rio Grande do Sul, minha terra natal. Lá no RS Neruda é quase um poeta nativo.

A leitura e a tradução dos poemas de Neruda me despertou para uma nova visão da vida e dos fatos. O Poeta utiliza de forma magnífica os elementos da natureza em seus versos. Fala da mulher amada como um ser sagrado, embora, muitas vezes utilize a figura feminina como uma metáfora para falar de política, de sua pátria e da forma como foi excluído do seu lar, do seu Chile amado.

Foram centenas de poemas de Neruda que li, degustei e traduzi, no começo como exercício do idioma, depois por prazer e vontade mesmo. Eis então o momento que o mosquito da poesia picou minh´alma!

Poesia não é necessariamente um texto escrito em forma de versos e rimas, isso é um “poema”. A Poesia é a beleza abstrata que uma obra de arte nos transmite, seja um verso, uma prosa, uma melodia, uma escultura, uma pintura, uma peça de teatro, filme, não importa a forma de expressão, sempre haverá uma beleza implícita na arte.

Poesia não foi feita para ser medida, mas para ser sentida, ela não tem dogmas, não tem regras rígidas nem rituais que devam ser seguidos. Manuel da Barros disse isso de forma muito simples:

“A ciência pode classificar e nomear os órgãos de um sabiá, mas não pode medir seus encantos”

Justamente por ser abstrata, o que eu vejo pode ser diferente daquilo que você vê na mesma obra de arte. E ai já está a primeira coisa que a minha religião, a poesia, ensina: “O ponto de vista do outro não é errado só porque é diferente do seu”.

Outros poetas foram surgindo e me mostrando de forma simples e clara coisas que a humanidade sempre complicou, como por exemplo, a definição de alma. Mário Quintana genialmente explica que “Alma é esta coisa que nos pergunta se a alma existe”. Viram? Simples assim, sem devaneios, teorias, teoremas, doutrinas, dogmas, etc.

Quintana ainda nos diz o que é a vida, outro tema que sempre causou alvoroço entre diferentes denominações religiosas e filosóficas:

“A vida é uma estranha hospedaria / De onde partimos quase sempre às tontas / Pois nossas malas nunca estão prontas / E nossa conta nunca está em dia”

O Lusitano Fernando Pessoa há mais ou menos um século atrás já dizia que a vida não era algo exato, ao compará-la com a navegação: “Navegar é preciso, viver não é preciso”.

Até mesmo a morte nos é colocada em forma de beleza pela poesia: (Mário Quintana - Inscrição para um portão de cemitério)

Na mesma pedra se encontram / Conforme o povo traduz / Quando se nasce - uma estrela / Quando se morre - uma cruz Mas quantos que aqui repousam / Hão de emendar-nos assim: / Ponham-me a cruz no princípio / E a luz da estrela no fim!

Por estes e por tantos outros motivos que a poesia trouxe a minha vida é que abro mão de me definir como um cristão, ateu, muçulmano, umbandista, espírita, budista ou seja qualquer outro “ista” que exista.

As religiões convencionais pregam uma tal “salvação” que o seguidor deve almejar. Para que você seja salvo é pressuposto que você esteja pelo menos perdido ou em grave perigo ou ameaça.

A poesia me ensinou que nunca estive perdido, nunca estive em perigo ou sob qualquer tipo de ameaça à minha alma. Isto basta para quebrar os dogmas e me permite ver o mundo com olhos diferentes, sem medos, sem culpas, apenas com a beleza que existe em cada simples coisa desta vida.


Frederico Tomazetti

Nasci Gaúcho, fui adotado por Minas Gerais, programado computadores para ganhar a vida e escrevo para alegrá-la..
Saiba como escrever na obvious.
version 3/s/recortes// //Frederico Tomazetti