um abraço para o mundo

A vida é uma porta sem tranca e uma janela sem tramela

Frederico Tomazetti

Nasci Gaúcho, fui adotado por Minas Gerais, programado computadores para ganhar a vida e escrevo para alegrá-la.

Quanto custa a perfeição?

O cinema é uma fonte inesgotável de bons (e também maus) exemplos de vida. Um filme sem muito brilho em sua produção e efeitos especiais pode nos levar a refletir sobre qual caminho seguir para chegarmos ao tão almejado objetivo de vida.


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Um jovem estudante da melhor escola de música dos EUA, toca de forma concentrada e com paixão pelo seu instrumento, a bateria, em um estúdio vazio. A cena mostra dedicação, prazer e gosto pelo aprendizado e que o aluno realmente deseja chegar a perfeição, quando subitamente percebe que está sendo observado…

Assim começa Whiplash, em busca de perfeição (título em português), com com Miles Teller e J. K. Simmsons em um enredo que nos faz refletir muito sobre o preço que pagamos pela perfeição em tudo o que buscamos em nossas vidas.

O maestro Fletcher, que assiste o jovem estudante Andrew tocar concentradamente sua bateria, é percebido pelo músico que interrompe seu ensaio em um misto de temor, surpresa e medo. O professor lhe faz alguns questionamentos e observações de forma inóspita e seca, marca uma nova audição para o dia seguinte e vai embora.

Andrew, assim como todos na escola, conhece a fama de carrasco de Fletcher e que este não aceita nada menos do que a perfeição em sua banda de estudantes de Jazz. Para muitos, ter sido aluno de Fletcher é pertencer a elite da elite da música, mesmo passando pelas mãos de um ditador sem escrúpulos.

Durante praticamente o filme todo o maestro Fletcher humilha seus comandados sob o pretexto de querer a perfeição na execução da peça musical que está em estudo. Isso fica muito claro quando ele percebe, durante o ensaio, que há um músico desafinado.

Para descobrir este músico ele interrompe o ensaio e ameaça seus alunos,pedindo para que aquele que estiver desafinando se identifique. Ao chegar em determinado músico, que supostamente desafinou, o maestro o humilha de tal forma que o aluno sai da banda com seu instrumento embaixo do braço qual um cachorro chutado para fora de casa. whiplash2a.jpg

Depois de humilhar o aluno expulso do grupo, ele volta-se a outro aluno e diz: “O desafinado não era ele, era você! Não erre de novo.”

O núcleo do filme baseia-se na disputa pelo cargo de baterista da orquestra e a disputa entre Andrew e mais dois concorrentes. Durante o filme todo há muita cobrança pela perfeição seguida de humilhações, ao ponto de um ex-aluno cometer suicídio devido a pressão e cobranças que sofreu nas mãos do maestro.

Andrew é o único que tem a coragem de encarar Fletcher durante uma discussão em um ensaio. O fruto disso é a expulsão de Andrew da banda e também da escola. Este fato, o suicídio de um antigo aluno e a enorme tirania de Fletcher causa também a demissão do seu posto de professor.

Como forma de vingança, Fletcher convida Andrew para participar de um festival de Jazz, onde seria tocado o repertório já conhecido nos ensaios da antiga escola. Andrew aceita o convite e sabe que ali está uma oportunidade de ouro para se tornar conhecido no mundo da música.

Com todos os músicos já no palco, o maestro passa pelo baterista e diz: “eu sei que foi você”, referindo-se a sua demissão da escola e anuncia ao público uma música que Andrew não estava preparado para tocar, ou seja, o maestro jogou o baterista aos leões.

A péssima execução da música iria manchar a reputação de Andrew para sempre. Mas após o fracasso em público, causado pela vingança de Fletcher, o músico volta ao palco, assume as baquetas e começa a tocar contra a vontade do maestro, que, para não ser também humilhado, finge reger sua banda. Andrew então transforma o que era humilhação em momento de glória, interpretando magistralmente a obra “caravan” juntamente com os demais integrantes da orquestra.

Até hoje a busca da perfeição, seja no que for, está ligada ao sofrimento, a dor e a humilhação que passamos para alcançá-la. Este filme mostra claramente isso, o professor nada mais é do que um déspota, um mau caráter, um sacana.

Quantas vezes ouvimos que não há conquista sem o suor do rosto? Nosso aperfeiçoamento, seja profissional ou pessoal, passa inevitavelmente pelo sacrifício. Sacrificamos horas, dias, meses, anos de vida em busca de um objetivo. Abrimos mão de muita coisa durante nossa vida para chegar a nossa “perfeição” e isso tudo acaba valorizando nossas conquistas.

Mas em nenhum momento a humilhação, o desprezo, o despotismo, a pressão psicológica e a cobrança maléfica fazem parte deste caminho em busca da nossa perfeição.

Muito pelo contrário, este tipo desprezível de atitude transforma o futuro talento em um ser frustrado, triste, sem expectativas. O tratamento humilhante sempre nos trará o sentimento de derrota, de que somos incapazes e de que nunca seremos bons o suficiente.

Seja onde for, sempre iremos nos sacrificar pelas nossas conquistas, mas isso não significa que devemos ser humilhados e pisados por ditadores que se acham mestres de alguma coisa!

“Não se educa recorrendo ao medo” - Hermann Hesse


Frederico Tomazetti

Nasci Gaúcho, fui adotado por Minas Gerais, programado computadores para ganhar a vida e escrevo para alegrá-la..
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