um abraço para o mundo

A vida é uma porta sem tranca e uma janela sem tramela

Frederico Tomazetti

Nasci Gaúcho, fui adotado por Minas Gerais, programado computadores para ganhar a vida e escrevo para alegrá-la.

a máquina de fazer espanhóis

ela chega de mansinho, aos poucos, é quase imperceptível, mas é inevitável. a velhice não nos bate à porta, ela chega um pouco todo dia e quando menos esperamos está sentada ao nosso lado e nos fará companhia até o fim de nossos dias. e quando estivermos ao seu lado em definitivo muitas surpresas boas e também ruins nos aguardam.


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antônio silva, um barbeiro aposentado português, oitenta e quatro anos de idade, após a morte de sua amada esposa se vê em um asilo para idosos chamado “a melhor idade”. inicialmente revoltado com a situação e com o descaso da filha e do já deserdado filho que nunca se importou com os pais, imagina que ali foi jogado para esperar a morte.

assim começa o enredo do livro do lusitano valter hugo mãe, “a máquina de fazer espanhóis” que através da velhice irá nos falar de vida, morte, amores, desamores, política, religião e também de poesia.

o livro tem um diálogo intímo com fernando pessoa (álvaro de campos) e seu poema tabacaria: “não sou nada, nunca serei nada, não posso querer ser nada. a parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo…” esta aproximação com o poema é bem percebido quando o senhor silva encontra no mesmo asilo um velhinho centenário chamado esteves, que segundo ele é o esteves sem metafísica que álvaro de campos conheceu na tabacaria e inspirou os seus versos.

no decorrer do livro, a convivência do senhor silva com os demais moradores do asilo nos mostra que a vida ainda nos reserva muitas surpresas quando imaginamos que ela já acabou para nós. desta convivência surgem novas amizades, algumas inimizades, situações engraçadas e emocionantes. ali também está presente muita vida e também um pouco de morte.

as lembranças que temos na velhice pode nos levar a cenários maravilhosos ou tenebrosos em poucos instantes. estas lembranças podem trazer remorsos ou exaltar feitos da juventude e ao trocar estas experiências com outras pessoas na mesma situação temos uma riqueza imensa de elementos que dariam para escrever muitos e muitos livros sobre o tema.

o senhor silva relata fatos de sua vida com a sua amada esposa que passa pela história política de portugal, na época da ditadura de salazar, sente-se um covarde por não ter tomado posição política na época e o confronto com outras histórias dos demais moradores, principalmente o esteves sem metafísica, levam o leitor a profundas reflexões sobre a vida.

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o autor é um jovem português com quarenta e poucos anos de idade que retrata a vida na velhice com maestria, nos mostra um lado que jamais imaginamos existir, lado talvez que só descobriremos se tivermos a sorte de morrer de velhice, da mesma forma como morreu esteves que sempre teve muita metafísica, ao contrário do que pensou fernando pessoa em seu poema.

ao se deparar com o livro, no começo ele nos deixa um pouco confuso, principalmente pela forma como ele está escrito e também por ser escrito com o português de portugal, que para quem é brasileiro, pode soar meio estranho no começo, principalmente por expressões idiomáticas próprias do pais de origem do autor.

o título do livro é bem instigante e nos deixa curiosos até o final, onde finalmente entenderemos o que é a verdadeira máquina de fazer espanhóis. se você que está lendo este artigo notou algo de estranho na sua estrutura, não se preocupe, não foi falta de cuidado do autor, foi mais um propósito para despertar sua curiosidade e ler o livro.


Frederico Tomazetti

Nasci Gaúcho, fui adotado por Minas Gerais, programado computadores para ganhar a vida e escrevo para alegrá-la..
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