Samira Calais

Eu, a cidade

Desejo que seja madrugada, mas ainda são 7 da noite.


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Fecho os olhos...

O cheiro me enjoa, o barulho me ensurdece, as luzes me cegam. Desejo que seja madrugada, mas ainda são 7 da noite. A noite vem vindo e traz consigo a massa de gente. As pessoas passam por mim e não me olham nos olhos. Não vejo nenhuma emoção, nenhum sentimento. Nada. Vem-me à cabeça Edgar Allan Poe: “quando esbarrados por outros passantes, não expressavam nenhum sinal de impaciência, apenas ajeitavam a roupa e seguiam se apressando”.

Pressa. Testas franzidas. Olhos cerrados. Esse cheiro...

Misturo-me com as ruas. Sou um pedaço do cinza. Apenas um pedaço. Pergunto-me: quando cheguei a esse ponto em que sou apenas multidão? Sinto a multidão dentro de mim. Apresso o passo. Quando me dou conta, me misturei àquelas pessoas que não conheço, que não sei o nome, que nem lembro o rosto, que nunca mais verei.

Pressa. Pressa. Esse barulho...

Os olhos evitam olhar. Evitam se olhar. Quando se olham praticamente pedem desculpas pelo erro imensurável. Seguimos, eu e os olhos que não olham. Os pés levam a destinos definidos. Passos certeiros, que caminham pelas ruas “cheias de almas tão vazias”. Pergunto-me: quando vou deixar meus pés me guiarem sem rumo? Tenho um caminho prudente a percorrer e sigo no encalço desse labirinto.

Essas luzes...

De repente paro. A cabeça dói. A cabeça sempre dói. Olho ao meu redor e não consigo enxergar onde estou. Olho pra dentro de mim e não entendo: onde sou? O cinza das ruas se mistura com a minha pele. A elevação dos prédios se confunde com a minha altivez. A pressa dos carros se funde com meus pensamentos.

Fecho os olhos...

Desejo que seja madrugada, mas ainda são 7 da noite.


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