Samira Calais

A incrível geração... não incrível?

Volte no tempo. Como você se imaginava aos 30? Ninguém nos avisou que a vida real não funciona como imaginávamos. A realidade é muito distante dos nossos planos juvenis. Não podemos largar tudo e ir vender brigadeiro na Europa. Apesar da falta de tempo, da falta de quintal e da falta de tranquilidade financeira somos felizes conquistando nossa independência aos poucos, mesmo com dificuldades.


Volte no tempo alguns anos. 15 anos de idade. Como você se imaginava aos 30? Com filhos, casamento, casa própria, quintal, carro novo, certo? Olhe para você hoje. Como está sua vida por volta dos 30? Posso arriscar um palpite? Provavelmente sem filhos, sem casamento, sem quintal, sem tempo e com muito cansaço.

Ninguém nos avisou que a vida real não funciona como imaginávamos. A realidade é muito distante dos nossos planos juvenis. Nossos pais tiveram infâncias difíceis e trabalharam duro para nos dar condições de estudar. Hoje, por volta dos 30 anos, estamos construindo nossas carreiras, tentando entender nossos caminhos, mas nos deparamos com inúmeras dificuldades: é caro estudar e se especializar, é caro morar, é caro comer. É difícil se estabilizar na cidade grande, é complicado conciliar as tarefas com a falta de tempo, é difícil ter uma qualidade de vida junto a tanto cansaço.

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Por muitas vezes pode ser frustrante olhar para o lado e ver aquele nosso amigo com uma vida mais tranquila que a nossa, enquanto trabalhamos e nos profissionalizamos tanto quanto ele. Lembra da meritocracia? Sinto informar, mas ela não existe. A vida real é implacável e a maioria dos jovens do nosso país trabalha para pagar os estudos, sai de casa de manhã bem cedo, utiliza transporte público e nunca andou de Uber, não cogita ter uma bicicleta porque mora na periferia e trabalha no Centro. Esses jovens não merecem mais do que quem nunca precisou trabalhar enquanto estudava? Não merecem mais do que aquele que estudou em escola particular durante toda a vida e entrou em uma universidade pública? Não são mais merecedores do que quem recebe todas as condições dos pais para desenvolver uma vida tranquila e estabilizada?

A maioria de nós não pode largar tudo e ir vender brigadeiro na Europa. Todo mês as contas chegam e o dinheiro está contado, quando sobra não é muito. Mas tudo bem. Apesar da falta de tempo, da falta de quintal e da falta de tranquilidade financeira somos felizes conquistando nossa independência aos poucos, mesmo com dificuldades. Muitos de nós conseguem viajar para lugares bacanas nas férias, fazer uma especialização, praticar uma atividade física regularmente, estudar um idioma diferente, comer naquele restaurante que tanto gosta. Também somos felizes dividindo o apartamento com um amigo, indo em shows na rua, comendo no PF da esquina, parcelando as compras no cartão. A vida não é fácil. Mas podemos torná-la leve.

Não existe um modelo de felicidade. Há quem se arrisca pelo mundo mesmo sem dinheiro. Há quem troca a estabilidade de uma profissão por um sonho. Há quem faz o que ama nas horas vagas. Ha quem enfrenta o dia a dia com esperança. Cada um faz seu caminho como dá, com os instrumentos que tem em mãos, porque há muitas e muitos de nós.

Quem calcula cada centavo no fim do mês. Quem trabalha em dois empregos para pagar as contas. Quem passa o final de semana fazendo um trabalho extra para ganhar um dinheiro a mais. Quem vive em um apartamento minúsculo. Quem mora na Europa e não tem o glamour dos turistas. Quem aguenta os olhares abusivos no transporte público. Quem sustenta sua família. Quem está longe da família buscando seu caminho. Nós somos incríveis. Todas e todos nós.


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