Samira Calais

A inigualável sensação da não solidão

“Estar sozinho” é um estado em que chegamos a partir do momento em que nos sentimos tão à vontade com nós mesmos que escolhemos para ficar ao nosso lado apenas quem queremos muito. Mas enquanto não aprendermos a nos preencher até transbordar não vamos conseguir nos doar verdadeiramente ao outro.


Meu amor, tudo em volta está deserto, tudo certo / tudo certo como dois e dois são cinco...

Sozinho. Olhar em volta e só se ver. Olhar para você e ver verdadeiramente você. O quanto essa sensação nos causa desconforto? Quanto nos suportamos, quanto nos gostamos?

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Estar sozinho não é a mesma coisa que estar na solidão, porque você pode estar sozinho e ter amigos que ama, uma família que te apoia, um companheiro ou companheira incrível. “Estar sozinho” é um estado em que chegamos a partir do momento em que nos sentimos tão à vontade com nós mesmos que escolhemos para ficar ao nosso lado apenas quem queremos muito. É uma seleção. E assim só escolhemos pessoas que verdadeiramente nos agregam, seja pelo amor, seja pelo cuidado, seja pela inteligência, seja pelas risadas, seja pelas raízes.

Quando a carência dá lugar à verdade a vida fica mais transparente e as relações mais reais. Nada mais real do que quando a gente se doa por inteiro num relacionamento. Sem jogos, sem fingimentos. A vida fica também mais difícil. Quanto mais real mais difícil. Mas vale a pena. Bauman questionou a fragilidade dos laços humanos e o quanto nos relacionamos apenas para manter as relações. É triste se relacionar amorosamente só para não ficar sozinho. É triste ter um grupo enorme de amigos que você não pode contar nas horas mais difíceis. É triste ter uma família numerosa que nunca se vê.

Quando Tom Jobim disse “fundamental é mesmo o amor, é impossível ser feliz sozinho” mal sabia sobre os anos que viriam à frente. A cada dia estamos lutando mais pela nossa independência, nossa liberdade. Se sentir livre é se sentir completo, é se sentir inteiro, é se sentir entregue. Sobre o amor eu não discordo, é mesmo fundamental. O amor é o combustível do dia a dia. Mas ele é muito mais do que o amor romântico e idealizado que nos mostram nos filmes e nas músicas. Ele começa, aliás, pelo amor próprio. Pelo conforto próprio. Por se sentir inteiro e querer compartilhar. Ser feliz é muito mais do que ter uma companhia. Enquanto não aprendermos a nos preencher até transbordar não vamos conseguir nos doar verdadeiramente ao outro.

Ficar sozinho é diferente de se sentir sozinho. Para escolher ficar sozinho é preciso coragem. É preciso amor em dobro: pelo outro e por nós. É preciso se tornar o dono da sua vida, da sua felicidade e, antes que alguém te faça feliz, entender como levar sua vida leve, sem depender de ninguém pra ver o mundo mais bonito e colorido.


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