Samira Calais

Destemor

No último suspiro de um edifício se vê: “vontade de muitos, coragem de poucos”. Mas quando a coragem se findou? Os caminhos só têm um sentido? A dor do outro não me despedaça? Escorre nas mãos a força da luta. Cabeças erguidas, corpos firmes. Sigo em frente.


Absorta em pensamentos sigo em frente. Vejo cinzas, vejo cólera, vejo pedras. Vejo solidão.

Meu olhar atravessado segue as curvas da cidade. As quinas dos prédios dilaceram minha existência. No último suspiro de um edifício se vê: “vontade de muitos, coragem de poucos”. Um barulho atravessa meus ouvidos e faz um buraco no meu corpo.

Quando a coragem se findou? Quando virou uma projeção? Quando ficou diminuta frente ao poder? Qual vontade me transborda? A minha vontade é só minha ou do outro? O que meus olhos querem, o que meu corpo pede? Quanto sou, quando faço? Desde quando a tristeza e a falta de esperança são protagonistas? Os caminhos só têm um sentido? Os trilhos me foram retirados? A dor do outro não me despedaça?

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Em meio a diferentes vidas, olhares se fitam. Cabeças erguidas, corpos firmes, verdades cruzadas. Reflete no olho do outro o desespero pela mudança. Arrepia na pele do outro o anseio por dias mais vivos. Escorre nas mãos do outro a força da luta.

A coragem está ali, latente, viva, esperando ser liberta. Liberta dos medos, das amarras. Esperando para ocupar a cidade, ocupar os prédios, ocupar os afagos, ocupar as respirações, ocupar o tato, ocupar os olhares e ocupar espaços internos dentro de mim. A vontade é utópica, mas a coragem é real. Sem receios, sem desconfiança, sem temores.

Sigo em frente. Vejo sóis, vejo hibiscos, vejo mulheres. Vejo cores. Sinto um arrepio que me flutua. Uma embriaguez pura, um acalento integral. Um sopro. As lágrimas surgem trôpegas.

Resistência, vividez, verdade, certeza.

Sigamos resistindo.


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