Samira Calais

Nos olhos, as bocas

A luz baixa, a sala vazia, o cheiro do álcool. Do mesmo modo que corria, o tempo se dissolvia e roubava seus sentidos.


Na boca, a noite. Nos olhos, as bocas.

O vazio estava ali, mas a música preenchia as lacunas. Os corpos se aproximaram e se notaram. Se descobriram frágeis, mas firmes. Os sons enluvaram os passos lentamente. Os olhos se encontraram de uma forma tão intensa que se repeliram. A luz baixa, a sala vazia, o cheiro do álcool.

A falta de gente e a sobra de sons revelavam uma poesia natural. Um silêncio musical: uma nota, uma respiração. Os pensamentos surgiram naquele momento, flanando, pairando, girando. Pensou como a noite trazia um frio que congelava seus pedaços. Pensou como a noite trazia um calor que esquentava seu coração. As sombras acarinharam o ambiente e os pensamentos foram embora assim como surgiram: misteriosos, rápidos e trapaceiros.

Os pés seguiam a música. Mas, enquanto as respirações se sincronizavam, os pés se desalinhavam. As pernas alternavam suas temperaturas num bailar silencioso. Os corpos permaneciam juntos, se tocando a cada nota, se separando a cada riso, numa sinfonia intensa e constante. As cabeças pendiam para trás, enquanto as bocas teimavam em se encontrar.

Os olhos fechados eram um espelho de dentro. Enquanto se deixava levar, se via ali, sem pudores, sem temores. Do mesmo modo que corria, o tempo se dissolvia e roubava seus sentidos. Ao abrir os olhos, as bocas se olharam. Os corpos se silenciaram.

Aquela foi a primeira e talvez a última dança.

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