Samira Calais

O encontro em si

Os desencontros da vida provocam encontros internos. Lidar com ausências é tarefa difícil, mas lidar com a ausência de si mesmo é ainda mais sofrido. Se encontrar é viajar para dentro de si, é cruzar barreiras, medos e inseguranças. E, se "a dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional", ser feliz exige paciência, competência, entrega e dedicação.


Quando ela se viu diante de um aperto no peito sufocante, que teimava em tirar o equilíbrio, uma amiga disse: “a dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional”. “Que bobagem”, pensou! Ninguém pode medir a dor do outro!

No dia seguinte se repetiu. Aperto no peito, olhos inchados, o mundo sem sentido. “A dor é inevitável, o sofrimento é opcional”, lembrou. Por incontáveis dias as cores ficaram apagadas, os cheiros menos agradáveis, as pessoas menos bonitas. “A dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional”. Que frase teimosa, não saía de sua cabeça.

Estava sofrendo, estava doendo. Dizem que o tempo cura, que é o senhor das feridas mais profundas. Mas resolveu que ela mesma iria resolver seus problemas, até porque aquele “o sofrimento é opcional” perseguia seus pensamentos. Resolveu ser senhora de si, encontrar sua força e seu norte, mesmo que apenas naquele momento.

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Há muitas “fórmulas” para diminuir o sofrimento. Mas não é que aquela velha máxima de ocupar o tempo funciona? Não dar tempo para a dor. Mas não é se ocupar de qualquer coisa! É se ocupar de gente, se ocupar de sorrisos, se ocupar de carinho, se ocupar de conhecimento, se armar, se amar. Porque aí, quando a dor aparecer, ela não vai ter espaço. Até chegar o dia em que ela vai ter espaço, mas, como num passe de mágica, vai ter desaparecido.

Dizem também que fazer uma viagem é uma boa forma de se encontrar, de se conhecer. Realmente, novos horizontes são importantes para o autoconhecimento. Porém, a maior e mais importante viagem para se encontrar é a viagem para dentro de si. É buscar força, é buscar empoderamento, é buscar confiança. E tudo isso vindo de dentro. Viajar para longe é cruzar oceanos. Viajar para perto é cruzar estradas. Mas viajar para si é cruzar barreiras, cruzar medos, cruzar inseguranças.

Os desencontros da vida provocam encontros internos. Lidar com ausências é tarefa difícil, mas lidar com a ausência de si mesmo é ainda mais sofrido. Como disse Saramago, “é necessário sair da ilha para ver a ilha”. Olhar para dentro é se entender, se sentir. É fechar os olhos e sentir sua respiração. É olhar para o espelho e se ver. É olhar para si e, na medida do possível, se dominar, pegar as rédeas e dar as cartas. É curar a ferida de dentro para fora.

Ser feliz dá muito trabalho. Exige paciência, competência, entrega e dedicação. É muito mais fácil aceitar os rumos da vida. Porém, a vida não está nas nossas mãos e a todo momento podem acontecer coisas ruins: sejam em maior ou em menor escala. Se deixamos o sofrimento persistir e a dor ser longa, passamos a nossa vida inteira sofrendo. Viver bem é difícil. Ser leve é tarefa árdua, um treino diário. Só quem é muito evoluído consegue ter esse equilíbrio sempre. Para nós, meros mortais, vale tentar. Tentar muito. Porque no final a recompensa vale a pena.


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