Samira Calais

(re) começo

O mistério da vida penetrado por dúvidas. Se não intacto, por que tantos pedaços? Se tão fluido, por que tão intenso? Se cruel, para que o deleite? Jogo-me no mundo, despida. A cada fim, um início de tempo: interno, pungente, latente, pessoal. Mas à minha volta tenho flores. Coloridas, de diferentes tipos, cheiros e formas.


Sentada, espero. Se olho ao redor vejo esperas semelhantes. Um suspiro latente, um olhar vazio, um sussurro ao vento. Bocas sedentas por gostos, peles precisando ser tocadas, mãos à procura de dedos, olhos buscando brilho.

Se fecho os olhos lembro da dor dilacerante, da esperança que teimou em se findar, das tentativas, dos muitos erros, das perdas. Pedras.

Quantas entregas ao vento? Quantos ventos soprados tortos? Quantos sopros em feridas profundas? Quanta profundidade desperdiçada? Quanto desperdício de querer? Quanto querer arrancado às dentadas?

E quantos "sim" proferidos? Sim, no fechar de olhos ao sentir a vida pulsando. Sim, no mergulho num beijo não retribuído. Sim, ao se dar olho no olho. Sim, na música que dança pela manhã e acorda os sentimentos. Sim, no coração disparado da chegada. Sim, no olhar marejado da partida.

O mistério da vida penetrado por dúvidas. Se não intacto, por que tantos pedaços? Se tão fluido, por que tão intenso? Se cruel, para que o deleite? Jogo-me no mundo, despida. A cada fim, um início de tempo: interno, pungente, latente, pessoal.

Atravesso as ideias dúbias e me deparo com um fato: à minha volta tenho flores. Coloridas, de diferentes tipos, cheiros e formas. Sorrio quando percebo a sinuosidade vital. As curvas do rosto percorrem um caminho sem volta, de amplitude, conhecimento.

Ainda espero. Ainda esperamos. Olho ao redor e sinto: esperamos. Mas o aguardar se torna um acalento. Dói, machuca, angustia. E aquece o peito. E inspira amor. E acaricia a pele. E renova. E compõe destinos. E faz sorrir.

Seriam as pedras flores a desabrochar?

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