Samira Calais

Cenas pretas

Humilhação. Invisibilidade. Preterimento. Desprezo. Servidão. Desconfiança.
Essas situações podem acontecer com qualquer pessoa. Mas o cruel é ser protagonista de todas essas cenas, incontáveis vezes, todos os dias, durante toda a vida.


Cena 1 - Olha no relógio: 9 horas. Ainda faltam alguns minutos para seu horário. Anda tranquila pela rua. Flanando, observando as pessoas com pressa. Cantarolando, observando a urgência alheia. Entra numa loja. Só uma olhadinha. Sente passos ao seu encalço. Sente uma presença em torno. Muda de direção, continua sendo olhada. Muda de semblante, não está mais tranquila. A cada passo pela loja sente outro atrás do seu. Só uma olhadinha. A função dele não é a segurança da loja? Por que eu sou uma ameaça? "Está precisando de alguma coisa?". As lágrimas vêm. Humilhação.

Cena 2 - Os olhos estão fechados. O movimento do ônibus a leva para um outro lugar. Lembra do filho que ficou na vizinha. Não sabe quando terá vaga na creche. Lembra das notícias de reintegração de posse. Não sabe se ainda terá onde morar. O trânsito não a incomoda. Mais tempo sozinha. O homem ao seu lado encosta em suas pernas. Ele se aproxima ainda mais. Ela grita. Os olhares não são de cumplicidade, são de julgamento. Desce um ponto antes e caminha triste. O coração salta numa mistura de raiva e impotência. Sabe que vai acontecer de novo. Chega 20 minutos depois do horário combinado. "Você está atrasada! Precisei eu mesma fazer o lanche do meu filho antes da escola!". Abaixa a cabeça. Invisibilidade.

Cena 3 - Precisa do emprego. Está preparada, qualificada. Acorda cedo, faz sua oração à Nossa Senhora da Luz, lê mais sobre a empresa. Estudou nas melhores instituições, mesmo com todas as dificuldades e barreiras. Incontáveis anos de estudo. Incontáveis anos de dedicação. Coloca aquela roupa que a deixa mais elegante, que não marca seu corpo. Prende o cabelo. Prende sua identidade. E a confiança? Está ali, cara a cara para decidir seu futuro. Sente um olhar a penetrar. Atravessar. Rasgar. Corroer. "Você é um pouco diferente do que estamos precisando". A pele queima de decepção. Preterimento.

Cena 4 - Dança livremente com sua saia comprida. Sente um olhar em sua direção. Retribui. Os olhares viram sorrisos, que viram risadas, que viram conversas, que viram cervejas. Das cervejas para os beijos basta mais uma dança. A noite passa feito vento. O relógio já marca 5 da manhã. Conversas em comum, amores em comum, medos em comum, até sonhos iguais. Um encontro estranho, mas forte. Por um momento acredita que ele não vai querer só sexo. Que vai querer conhecê-la. Que vai ser diferente. Mais risadas, mais conversas, mais beijos, mais proximidade. "Você é linda. Te ligo amanhã". Já sabe que o amanhã não chega. Desprezo.

Cena 5 - A festa está cheia. Ela vê as pessoas circulando com bebidas nas mãos. O visor do celular mostra 20h50. Ela chegou mais cedo que o combinado. Fica sozinha esperando, enquanto repara nas risadas alheias. Cabeças se voltam para trás em gargalhadas. Fotógrafos registram os movimentos. As luzes a fazem cerrar os olhos. Um homem derruba um copo ao seu lado. Ela abaixa para tentar ajudar. Ele mal olha em sua direção e fala o que tantas vezes ela já ouviu. "Você pode limpar aqui pra mim?". Não se abala, já está acostumada. Servidão.

Cena 6 - Seu cabelo carrega um lenço colorido. Contrasta com o jaleco branco. Quando era plantonista não podia usar. Mas nunca se esqueceu da touca cirúrgica de gatinhos da colega de faculdade. Está cansada, mas olha orgulhosa seu consultório. Os brinquedos. A imagem de Iemanjá. Os livros. O sonho de trabalhar com pediatria se tornou realidade. O telefone toca, é a secretária. Mais um paciente novo. Mais uma mãe nova. Respira fundo e se prepara. Dessa vez os olhares vêm acompanhados de palavras. "Onde está a doutora que vai nos atender?". Sente que nunca vai estar em pé de igualdade. Desconfiança.

Essas situações poderiam ter acontecido com qualquer pessoa. Mas o cruel é ser protagonista de todas essas cenas, incontáveis vezes, todos os dias, durante toda a vida.

Olhe em volta. Quantas mulheres negras você tem ao seu redor? O que elas estão fazendo? Em quais cargos estão? Que papéis na sua vida elas estão ocupando? Qual é o valor delas para a sociedade? Humilhação? Invisibilidade? Preterimento? Desprezo? Servidão? Desconfiança?

A resposta para essa realidade é dura, mas necessária: luta, luta, luta!

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