Samira Calais

Ela descansa

O relógio não avança. O silêncio incomoda os ouvidos. A espera dói. Ela está ali. Sua respiração, seu coração, sua quentura, seu sorriso. E sua mente? Sempre tão firme, tão inspiradora, resolveu se ausentar?


O vento frio arde na greta da janela. O barulho do oxigênio se mistura com o silêncio. Ou seria a respiração dela? Ou seria o meu coração? Meus olhos descansam. Meu corpo não. Uma mulher de branco vem e a examina. É a médica dela. É a enfermeira dela. É o anjo da guarda dela. É a santa dela. Eu fico imóvel na poltrona.

Meus olhos descansam nela. Ela descansa. Um descanso profundo, intenso. Às vezes queria estar imersa nesse sono com ela. Seu coração está ali. Sua respiração está ali. Sua quentura está ali. Seu sorriso está ali. Mas e sua mente? Para onde foi? Sempre tão firme, tão presente, tão real e tão inspiradora, resolveu se ausentar? É um teste. Ou um desafio para nos engrandecer. Ou seria apenas uma mente inquieta se rebelando contra as preocupações do mundo? Talvez. Uma revolta contra o desamor. Uma revolta contra a falta de paz. Contra a falta de empatia, a falta de humanidade. Talvez.

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Faz tempo que meus olhos não descansam. Meus olhos descansam nela. Meus olhos fitam o dela. Concentram-se no dela. Atravessam o dela. Ele pisca. Pisca, mas se fecha num repouso firme. Pisca, mas ignora o mundo exterior. Pisca, mas dá de ombros para as expectativas alheias. Ela está iluminada. De uma energia forte, que mesmo imóvel atinge a todos ao redor. Iluminada. De uma serenidade ofuscante, que acalma os corações. Iluminada. De uma força genuína, aquela que ela mesma nos ensinou.

O relógio não avança. As gotas do soro caem preguiçosas. O silêncio incomoda os ouvidos. A respiração é ritmada. Espaçada. Entrelaçada. Esperançosa. Os movimentos são lentos. Genuínos. Incompletos. Verdadeiros.

A espera dói. A espera assusta. A espera abre o peito em pedaços. Mas a espera engrandece. A espera fortalece. A espera une. Une o que parecia impossível se unir ainda mais.


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