Samira Calais

Que sou

Não faz sentido, nem vai fazer. Todo sentido é pura invenção.


Eu, que sou ponta dos pés, seguro a vida entre coxas trêmulas.

Os dedos das mãos se molham nos olhos que atravessam o passado.

Eu, que sou Sol, vejo meu reflexo na Lua fria de julho.

A carne se inflama no quase derretido gelo do coração.

Eu, que sou gargalhada cortante, pulso no silêncio dos olhares.

Um nó me embrulha feito prisioneira solitária.

Eu, que sou porta-retratos, monto quebra-cabeças sem figuras.

Rostos e sorrisos se sobrepõem pelo meu corpo.

Eu, que sou destino, atravesso o pensamento pela minh‘alma.

O acaso me sugere planos que arrepiam a pele.

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A noite vem fria, cortante, ensurdecedoramente silenciosa.

Tenho flores em torno, de várias cores, formatos, cheiros. Tenho braços, compridos, apertados, firmes. Tenho bocas, sons, beijos, sabores. Tenho corpos, peles, toques. Tenho olhos, amor, lágrimas.

Fecho os olhos, olho por dentro. Os suspiros saem vazios. Respiro o ar quente. Minha casa é o meu corpo. Minha casa não sou eu. Onde sou? Como sou? Choro. Demoro.

Não faz sentido, nem vai fazer. Todo sentido é pura invenção.


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