Samira Calais

Coragem, menina

Ela era som. Era movimento. Era tão luz. Mas entre rodopios e canções amou. E sem perceber fundiu o eu em outro. E ela virou dois.


Uma luz tão linda saía dela. Ela era leve, parecia que flutuava. Só de olhar dava vontade de dançar. Uma dessas músicas que a gente fica rodopiando. Isso, ela era um rodopio! Uma pirueta inteira de uma bailarina! Às vezes também parecia canção. Aquela que o Chico praticamente recita nos ouvidos. Ela era som. Era movimento. Era tão luz.

Seu flutuar pelas ruas pairava também na sua cabeça-flor. Imaginava, criava, flanava. Escrevia versos. Inventava amores. Imaginava músicas. Ela imaginava e vivia entre verdades inteiras e passados retorcidos com cor, muita cor. Firme como uma raiz. Leve como uma folha verdinha.

Entre rodopios e canções amou. E sem perceber fundiu o eu em outro. E ela virou dois. A sua imaginação se misturou com a outra imaginação. A sua dança precisava da outra perna pra ser dança. A sua memória se misturou com a outra memória e um dia se perguntou raivosa, quem sou eu? Não sabia se reconhecia a si, tinha esquecido. Será que nunca conheceu ou virou uma desconhecida?

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Não era culpa de ninguém. Nem da outra perna. Muito menos da outra imaginação. O rodopio parou, a saia não girava. A voz da canção calou, eram só notas soltas. A soma de dois parou de somar e subtraiu sua vida. Se olhou por dentro e chorou. Ela deixou de ser luz. Ela se viu flor retorcida.

Ela precisa se ter de novo. Girar de novo, leve e luminosa. Encontrar forças para se reencontrar. Sozinha. Ou em dupla-amor. Ou em bando. O caminho é dela, sem fórmula, sem mapa. Desfazer o dois não-verdade e ser um-inteiro.

Ela olha. Deixa vir sua luz. Coragem, menina.


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