Samira Calais

Meu cabelo, minha coroa

Como desenvolver a minha autoestima sem amor por mim inteira? Como me relacionar bem com o outro se não me relaciono bem comigo? Como me achar linda se quando olho no espelho não vejo verdade? A aceitação do meu cabelo só chegou quando acolhi a minha ancestralidade. Quando percebi que no meu corpo corre sangue negro e que eu só poderia me reconhecer quando reconhecesse todas as mulheres que vieram antes de mim.


Tinha 14 anos. Acho que foi a minha única briga com ela. Entre um choro raivoso e inseguranças adolescentes eu gritava com muito ressentimento: "Mãe, a culpa é sua eu ter esse cabelo! O do meu pai é liso, lindo, queria ter puxado ele. Eu não merecia isso!". Eu nunca consegui me esquecer das lágrimas caindo pelo rosto dela. Aquela mulher linda, elegante, forte, que nunca se reconheceu como negra, que alisava meticulosamente o cabelo, que virava uma leoa sempre que eu sofria algum preconceito, aquela mulher estava chorando. E tentando se explicar. E tentando entender. E tentando encontrar uma solução: "vamos no melhor salão da cidade. Gasto o que for pra nunca mais ouvir isso da sua boca". Ali começava verdadeiramente a minha história como mulher negra.

Vou adiantar o fim da história, acabar com a surpresa: não há nada que eu ame mais em mim do que o meu cabelo. Meu cabelo é a minha coroa. A minha identidade percorre as curvas de cada fio. A minha ancestralidade se debruça da raiz às pontas. Ele me deixa segura. Ele me deixa autoconfiante. Ele representa a minha luta. Entrelaçado em panos ou livre no vento. Ele sou eu. Mas o caminho até aqui foi longo.

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Desde pequenas as meninas sofrem pressões estéticas. As de cabelos cacheados e crespos então sofrem essas cobranças em dobro. Vivemos em uma sociedade que vende um padrão branco e liso e quem não se encaixa corre o risco de amargar inseguranças para o resto da vida. Quando eu era uma menina não havia princesas negras, não havia apresentadoras com o cabelo igual ao meu, não havia mocinhas de novela sem o cabelo esvoaçante, não havia capa da Capricho com ninguém parecida comigo. Eu não me enxergava em lugar nenhum.

Depois de ter ido no "melhor salão da cidade" saí de lá com menos cachos. E mais sorrisos. Os meus de aceitação. Os da minha mãe de alívio. E toda vez que eu voltava lá eu me aproximava mais de um padrão esperado e me afastava mais da menina que eu era, da mulher que eu sou. Os risos dos amigos haviam parado. As inseguranças haviam diminuído. A dificuldade de cuidar de um cabelo crespo havia acabado. Mas a falta de identidade e a inquietação não, só aumentavam.

Como desenvolver a minha autoestima sem amor por mim inteira? Como me relacionar bem com o outro se não me relaciono bem comigo? Como me achar bonita se quando olho no espelho não vejo verdade? Uma vez ouvi uma amiga de longos cabelos lisos e volumosos dizer: "o cabelo é a moldura do rosto". Aquela frase não saía da minha cabeça. A cada vez que olhava no espelho eu via um rosto qualquer sob uma moldura sem vida, sem personalidade, sem franqueza. Eu nunca me achava bonita. Eu só tinha um cabelo que tentava se aproximar do padrão.

A aceitação só chegou quando acolhi a minha ancestralidade. Quando percebi que no meu corpo corre sangue negro e que eu só poderia me reconhecer quando reconhecesse todas as mulheres que vieram antes de mim. Inclusive a minha mãe, sempre tão negra e exuberante enquanto jovem e totalmente embranquecida e apagada com o passar dos anos. Aceitar o meu cabelo crespo foi um ato não só de amor pelo que eu realmente sou, mas também um ato de resistência. Foi me arrancar do padrão, foi me tirar da zona de conforto, foi me descobrir em um mundo novo, foi me colocar na linha de frente da luta pela identidade de meninas e mulheres negras, principalmente as que são embranquecidas pela sociedade.

Essa história, que é o meu desabrochar e o meu reconhecimento, poderia ser a história de qualquer menina ou de qualquer mulher que luta diariamente para se notar em meio a tantos padrões cruéis e segregadores. Meninas e mulheres que nunca ouviram que são lindas, que nunca entenderam que seus cabelos são únicos. Se você tiver uma dessas na sua família, se for sua amiga, se for sua companheira, se for sua filha, lembre-a sempre, pois a sociedade faz questão de esconder: seu cabelo é a sua coroa!


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