Samira Calais

Não ando só

Ela para e olha em volta. Pensa nas mulheres incríveis da sua vida, nas irmãs de luta, nas que ainda nem conhece. Se sente firme, segura. Tem certeza da força de todas juntas.


No fone de ouvido a batida do rap. Ela graceja pelas ruas toda sua recém-conquistada confiança preta com um sorrisinho de canto de boca e uma camiseta bradando "girl power". Seu cabelo volumoso reluz com o Sol.

Do outro lado da calçada um peito é botado para fora. Se misturando com as cores do muro grafitado, o leite esguicha e ela alimenta sua filha, se sentindo forte e poderosa nesse papel não tão sonhado.

Ali mesmo, em meio ao cinza, um outro rosto chora. Ela tenta entender o sentido da vida, o seu próprio sentido. Às vezes culpa o universo. Enxuga as lágrimas e segue. Tem certeza que a culpa é do retorno de Saturno.

Pela avenida anda sem rumo com suas pernas manchadas de roxo, mas livres, soltas. É o primeiro dia liberta do seu relacionamento abusivo e ela não sabe o que fazer com essa sensação estranha de liberdade.

Naquele bar da esquina ela se senta com outra mulher. Olha fundo nos seus olhos com amor enquanto pensa em como a felicidade não deveria ter gênero para acontecer.

Caminha entre tantas outras pensando em como é comum igual a elas. Com seu livro daquela autora clássica embaixo do braço, se mistura à multidão, feliz. Fica satisfeita em lutar junto com as suas irmãs por um mundo melhor para todas.

Seu esperado horário de ir para casa chegou. Ela vê mais o filho da patroa do que a própria cria. Corre e atravessa enquanto o sinal está vermelho, para chegar mais rápido e encontrar sua pequena ainda acordada.

Desce do ônibus com a sua elegância metida naquele vestido azul antigo. Seus cabelos não são mais ruivos e lisos como antes. Os fios brancos e grossos brilham e revelam a sua própria verdade. Ela está confortável com as novas marcas do tempo.

Anda devagar pelas ruas enquanto vê diversas mães com seus filhos. Lembra da cobrança que sofre diariamente para ficar grávida, mas sorri, aliviada. Seu coração bate forte quando vê um cachorrinho abandonado.

Ela vibra em passos rápidos e firmes, atrapalhada com tantos livros do novo curso na faculdade. Abandonou a carreira infeliz, deixou de lado as vaidades, o dinheiro e foi ser ela mesma.

O vento bate em seu rosto, que agora não tem mais pelos e parece mais delicado. Ela passa a mão nos longos cabelos e os segura com força. Sabe que vai ser difícil, que vão ter preconceitos. Mas não diminui o passo nunca.

Ela colocou aquele top que ficava no fundo do armário. Não sente mais vergonha do seu corpo, pelo contrário. Anda pela rua movimentada orgulhosa da mulher confiante que se transformou.

Seus olhos marejados e firmes escondem o constrangimento no transporte público. Defende seu corpo de olhares e toques. Protege seu templo. O corpo é dela e só encosta quem ela quiser.

Ela para e olha em volta. Com o caderninho na mão quer escrever um texto sobre mulheres. Vê várias de todos os tipos ao seu redor. Pensa nas mulheres incríveis da sua vida, nas irmãs de luta, nas que ainda nem conhece. Pensa no amor que sente por elas. Lembra da mãe que não está mais aqui, mas está o tempo todo presente. Se sente firme, segura. Tem certeza da sua força. Tem certeza da força de todas juntas.

Não mexe comigo, eu não ando só!

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