Samira Calais

Não vai rir?

Na TV faziam piada com a sua cor. Nas rodinhas contavam aquela do negão. “Só faz merda”, “macaco”, “coisa de preto”. Risos. Acuada. Quieta. Cismada.


Ela não era tímida. Definitivamente. Se sentia acuada. “Só se soltava no meio dos pretos”, diziam. “Preta cismada”, rotulavam. Mas ela só se sentia acuada. Desde muito nova era assunto nos locais que frequentava. Assunto não. Piada. Riam do cabelo, trançado desde a raiz, com um penduricalho colorido nas pontas. Riam da pobreza, que a impedia de ter tudo o que precisava para fazer parte daquele mundo. Riam da pele, que escura como a noite, contrastava com a luz do dia que transparecia do seu sorriso sincero. Na TV faziam piada com a sua cor. Nas rodinhas contavam aquela do negão. “Só faz merda”, “macaco”, “coisa de preto”. Risos. Acuada. Quieta. Cismada.

Hoje, dona das suas vontades, exibe sem medo dos risos sua pele escura e seu sorriso luminoso. Passou por caminhos difíceis e viu que para ela aquilo não era piada. Que aquilo só a diminuía e que ela não podia nem devia ficar calada. E não ficou. Além da TV, das rodinhas e piadinhas, tinha a internet. Lá ela leu tudo de pior sobre sua cor, seu povo. Brigou, lutou e segue firme. Continua sendo a “preta cismada”. Mas agora é a preta que não aceita piadas racistas. Ela não é “suas negas”.

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Você já ouviu falar que o mundo está ficando chato? Que não dá mais para fazer piada, não pode mais falar sobre nada? Dia a dia vemos diversos humoristas e pessoas comuns que ainda não perceberam que os tempos mudaram e que piadas racistas, homofóbicas, machistas, gordofóbicas etc. não têm mais graça para algumas pessoas (se é que algum dia realmente tiveram). Quem antes só se sentia acuado, agora tem lugar de fala. Quem antes só abaixava a cabeça, agora tem consciência do que machuca. E no alto desse lugar conquistado o preconceito não passa batido. Pelo contrário, o preconceito é combatido, colocado em pauta. A garota do começo do texto representa muita gente que ficou com marcas pesadas por ser tema de piadas e não saber como se defender. Por simplesmente rir ou abaixar a cabeça, por não perceber isso como uma segregação. Por não entender a graça de ser como é.

Quando esse tema surge sempre vem alguém e pergunta: piada com preto não pode, mas chamar branco de palmito pode? Não pode com gay, mas pode com português? A escolha, claro, é de quem faz. Mas pensando que brancos e portugueses não são mortos por serem simplesmente o que são, essas piadas não entram no mesmo balaio que as que fazem com pessoas e condições que segregam. Negros sofrem diariamente com comparações com bandido e são mortos por isso, mulheres têm no mundo todo desigualdade salarial e de oportunidade, transexuais não têm respeito algum quando se trata de relacionamentos amorosos, gordos são motivo de desprezo por padrões de beleza. Por que fazer piada disso? Que graça tem rir de quem já sofre diariamente com a sua própria condição?

Você é mulher e não liga para piadas machistas? Tudo bem, é um direito seu. Mas, quando alguma mulher disser que a piada foi misógina, escute, tente entender o porquê dela não ter gostado e não diga apenas que é “mimimi”. De acordo com as vivências, tudo o que sofreu e lutou, ela está no direito de se incomodar. Se você é homem não é seu papel decidir se uma piada foi ou não machista. Os homens até podem escolher continuar falando como quiserem, mas têm que estar preparados para escutar que estão sendo machistas. Acredite, não é frescura.

Reclamar de uma piada não é censurar, é simplesmente reclamar de uma piada que atingiu alguém. Se uma pessoa se acha no direito de atacar uma mulher, tem que aguentar reclamações de que está sendo preconceituoso. E o pior ainda para um artista: tem que aguentar que não riam da sua piada, que seja considerado uma pessoa sem graça. Fere o ego, eu sei. Isso porque não estamos entrando nos termos legais, já que racismo é crime. Estamos falando apenas das “piadas”. Do humor que traz consigo enraizado todo o preconceito que enfrentamos na nossa sociedade.

Sim, ficou mesmo mais difícil fazer humor nos dias de hoje. Mais desafiador, na verdade. O que fazia rir há anos, hoje já não tem tanta graça. O que era sucesso garantido, hoje já não é sinônimo de audiência ou casa cheia. Pensar antes de fazer é difícil, eu sei. Pensar diferente do senso comum é mais complicado ainda. Hoje é mais engraçado fazer graça sem ofender! E para os fazedores de graça fica o conselho dos novos tempos: preconceito não tem graça.


version 46/s/sociedade// @obvious, @obvioushp //Samira Calais