Samira Calais

Ouça

Qual foi a última vez em que você ouviu a sua própria voz? O que te faz inseguro? O que te deixa acuado? Querem sempre nos silenciar, todo o tempo. De tanto nos calar acostumamos a não ter voz. Para mostrarmos a nossa majestosa beleza e nosso poderoso lugar na sociedade precisamos falar alto. Vamos gritar juntas e juntos?


“Nossa fala estilhaça a máscara do silêncio”. Com essa frase de Conceição Evaristo começo o texto perguntando: qual foi a última vez em que você ouviu a própria voz? Quando disse em voz alta o que realmente sentia?

Eu ainda era uma menina corajosa de 5 anos. Lembro da fala firme de minha mãe: “Você não é melhor que ninguém, mas também não é pior. Nunca deixe ninguém te diminuir”. Minha amada mãe nunca nos enxergou como mulheres negras e nunca fui criada como tal. Curiosamente, os momentos em que mais me lembrava da frase dela era quando zombavam meu cabelo, quando me hipersexualizavam, quando riam da minha pele, quando eu ficava invisível. Aquela voz segura e alta no meu ouvido era a minha fortaleza: “não sou pior que ninguém”.

No meu silenciamento pessoal, sinto a existência da mulher negra como incômodo para uma sociedade machista e racista. Quando não somos invisíveis, somos indigestas. A nossa fala não é acalento, pelo contrário. É um grito de dor, de resistência. Demorei a aprender mas percebi, depois de anos de insegurança, que muitas vezes posso ser ouvida. Para mostrarmos a nossa majestosa beleza e o nosso poderoso lugar na sociedade precisamos falar alto. Gritar às vezes. Vamos gritar juntas e juntos?

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O que te faz inseguro? O que te deixa acuado? Como você foi silenciado? Querem sempre nos calar, todo o tempo. A mim, a você, ao nosso conhecido, ao nosso familiar, à nossa amiga, a todos. Pelo “cabelo ruim”, pelo corpo fora dos padrões, pela identidade de gênero, pela sexualidade, pela condição social, por ser mulher, por ser estrangeiro, pelo estilo de vida, pela religião, pela profissão, pelo que deixamos para trás, por sermos quem somos.

Vivemos nos policiando, pensando no que dizer e em como dizer. Se vamos ser julgados, se vamos ser escutados, se vamos ser silenciados. Precisamos falar para ser ouvidos. Parece óbvio, eu sei. Mas as mordaças invisíveis estão por todos os lados. Nos moldamos em padrões que não concordamos. Nos entregamos a situações que não queremos. Nos deixamos levar por clichês e os reproduzimos. Cedemos. E cedemos. E cedemos. E nesse ciclo esquecemos quem somos, perdemos a nossa identidade. De tanto nos calar acostumamos a não ter voz.

Não tenha medo de se ouvir. Não tenha medo da sua fala ser inspiração para o outro. Não tenha medo da sua verdade ser um impulso para o outro. Não tenha medo de fazer com que a sua existência seja violenta, impositiva. Saia do silêncio. Se escute. Não é preciso ser gentil o tempo todo. Às vezes é preciso sermos indigestos para sermos verdadeiros. Ouça sua própria voz. Não tem nada melhor para os ouvidos.


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