Samira Calais

Pra que rimar amor e dor?

Será que o final feliz vale a pena se temos um enredo tão difícil? Será que não é melhor tentar buscar algo diferente da trilha sonora de um sertanejo qualquer e tentar a “sorte de um amor tranquilo”?


Confesso que nunca fui adepta do “amor só é bom se doer”. Nunca entendi muito bem o porquê de estar em um relacionamento que causa dor. Nunca soube qual a vantagem de estar junto sem ser para somar. Confesso, nunca fui muito fã de amores loucos de novelas.

Somos bombardeados diariamente com os mais diversos clichês sobre relacionamentos: dor, ciúme, raiva, cobrança e por aí vai. Vemos casais brigando, sofrendo e se amando na TV, músicas, filmes e livros. São lindas paixões, arrebatadoras, intensas. Mas que durante 90% do tempo só causam dor. Será que o final feliz vale a pena se temos um enredo tão difícil? Será que não é melhor tentar buscar algo diferente da trilha sonora de um sertanejo qualquer e tentar a “sorte de um amor tranquilo”?

Sim, eu sei que é difícil. Fomos criados achando que para amar temos que abrir mão do que gostamos. Que para amar temos que nos tornar uma pessoa diferente da nossa essência, temos que nos tornar um só junto ao outro ou à outra. E que não há escolha, para amar verdadeiramente temos que sofrer. Aí quando aparece aquele amor tranquilo, suave, companheiro, que vai se construindo dia a dia achamos estranho, “mas o amor só não é bom se doer?”.

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Para que dificultar tanto se a dor dia a dia já é tão inevitável: lutas diárias pessoais, dificuldades no trabalho, autoaceitação, problemas familiares e por aí vai? E nessa dor do dia a dia incluo também as questões corriqueiras dos casais, como desentendimentos, problemas financeiros, divisões de tarefas, inseguranças. Mas essa dor do dia a dia passa, se resolve, cessa. Companheiros costumam driblar os obstáculos juntos, buscar tranquilidade juntos. Já o sofrimento amoroso não. Ele não passa, fica ali latente, pulsando. Quando o amor só é bom se doer ele dói mesmo. Muito. Ele é abusivo, ele é doentio, ele tem amarras, ele tem agressões físicas ou mentais, ele tem donos.

Um sentimento tão livre e tão libertador quanto o amor não merece cair nesse clichê. Que reforça estereótipos e geralmente deixa a mulher em posição inferior, como sofredora, ciumenta, rival de outras mulheres. Que torna o amor vilão, complicado. Um sentimento tão corajoso só merece ser desbravado, andar junto, dar novas e boas sensações e o menor número possível de lágrimas tristes. Não tem padrão, mas o amor existe para transbordar e não para machucar.

Eu sei que o amor tranquilo dá medo. Eu também tenho, muito. Às vezes parece que não é o certo, que falta algo. Mas acredite: dor e amor não combinam. Ao invés de repetir Vinícius de Moraes e seu amor dolorido eu prefiro cantar Caetano: “mora na filosofia, pra que rimar amor e dor?”. 


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