Samira Calais

Viva real (ou nada menos que tudo)

A vida não vale a pena se não estivermos inteiros. Inclusive na dor. Inclusive nas dificuldades. Mas, principalmente no amor. Não se culpe de sofrer. E muito menos de ser feliz. Mas, em hipótese alguma se culpe de sorrir em meio a tristezas ou turbulências.


Acho que ainda era inverno. Ela acordou com uma sensação boa. Um gosto de ressaca, misturado com uma dorzinha no canto da boca. É de tanto sorrir, ela pensou. A vida estava a um fio, dura, passava por turbulências inimagináveis. Mas naquele momento a sensação boa a preenchia. O calor do edredom naquela manhã a envolveu, cada pedacinho seu. As poucas horas de sono, o cansaço, o medo iminente, a saudade, nada tirava a tal sensação boa. Pensando bem, com certeza ainda era inverno. Mas a sensação era de primavera. Em meio a tanta dor, aprendia verdadeiramente a amar. Acho que ali aprendia que não vale a pena se não estiver inteira. Inclusive na dor. Inclusive nas dificuldades. Mas, principalmente no amor.

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Vivemos a bela e perigosa ilusão de acreditar numa vida plena de felicidade. Desejamos uma vida sem tribulações, sem lágrimas e dor. Só com sorrisos, amores e completude. “Ser feliz” é o que mais queremos, o que mais desejamos para quem amamos. Somos cobrados de nos cobrir de uma felicidade constante. Mas a vida real, fora da bolha, é dura. A vida real, fora das músicas românticas, é dolorida. A vida real, com pessoas reais, é viva.

Como não se iludir? Como não se frustrar? E como não desistir? Buscar a felicidade completa é um erro tão grande quanto achar que o sofrimento não vai passar.

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Assim como em felicidades imensas, quando somos apanhados por algo ruim acreditamos que a condição é permanente, que nada nunca mais vai dar certo. Que a nossa dor é a maior do mundo e ninguém nunca vai entender. Que aquela angústia nunca vai sumir e parar de sufocar. E que a vida é muito injusta.

Mas, na verdade, a vida real é só estranha. E gozadora. Remexe com a felicidade de um jeito que tira o fôlego. Sempre parece sem volta. Como uma onda imensa que vem e dá um caldo daqueles de revirar o corpo, espalhar areia e tirar o biquíni do lugar. Mas, perdoem o clichê, depois do caldo a gente finca o pé no chão até conseguir se firmar e voltar a aproveitar o mar. Aquela sensação sufocante de estar sem fôlego passa. E vem a tal da calmaria.

São nesses momentos de extrema dor ou sublime felicidade que devemos parar de nos cobrar. Só deixar os sentimentos virem e tão-só sentir, sem exigências e nem julgamentos. Viva tudo. Sinta tudo. Não se culpe de sofrer. E muito menos de ser feliz. Mas, em hipótese alguma se culpe de sorrir em meio a tristezas ou turbulências. De ser feliz genuinamente mesmo quando tudo vai mal. De amar intenso enquanto vive uma dor. O riso brota no meio da dor. E a lágrima cai no meio de alegrias. Somos seres múltiplos e seria um erro achar que também não somos diversos de sentimentos, emoções e sensações. Seria um erro achar que tudo isso não se mistura constantemente. Faz parte da nossa essência plural.

Escute seus sentimentos plurais, não os silencie. A felicidade nada mais é do que uma escolha, uma entrega. E a dor nada mais é do que uma condição: inevitável, mas passageira. Faça esse exercício. Você está sentindo por inteiro? Na alegria e na tristeza você tem dado e recebido “nada menos que tudo”? Não é uma cartilha de felicidade, mas se permita viver o que quiser, da maneira que achar melhor, vivendo verdadeiramente os momentos. A vida não vai ficar mais fácil, a dor não vai passar mais rápido, as alegrias não vão ficar permanentes. Mas pelo menos passamos a ser um pouco mais sinceros e menos duros com a gente.


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