Giseli Rodrigues

Especialista em Leitura e Produção de Textos, Gestão de RH e Gestão Empresarial. Professora. Escritora. Viciada em livros, viagens e chocolate. Fã de José Saramago e Amodóvar. Gosta de Arte Abstrata e rabisca com frequência. Tem um filho, escreveu um livro e plantou uma árvore. Mais textos podem ser encontrados em http://amorcronico.wordpress.com

Nem toda madrasta é má

Ser madrasta é contestar, diariamente, o estereótipo de mulher má e sofrer com os modelos apresentados pela Disney. É amar, respeitar e se preocupar com um filho que não é seu. É ter consciência de que nunca irá usufruir das mesmas condições dos pais, avós e tios. É conquistar um lugar no coração do enteado e construir uma relação de amor e confiança que ainda causa admiração na maior parte das pessoas.


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Desde crianças aprendemos, principalmente com os contos de fadas, que madrastas são pessoas ruins. São mulheres más, incapazes de sentimentos afetuosos e cruéis com os filhos do seu companheiro, frutos de relacionamentos anteriores. Em muitas histórias infantis a madrasta é aquela que faz da vida dos enteados um verdadeiro inferno.

Com tantas separações e recasamentos, é comum que as crianças convivam com os companheiros da mãe e do pai, os padrastos e madrastas. O problema é que, longe dos contos infantis, a ideia da madrasta má povoa o imaginário das pessoas. O que elas imaginam sobre os padrastos eu não faço ideia, mas sobre as madrastas eu conheço muito bem. Afinal, eu sou madrasta.

O preconceito começa com a própria palavra. Quando alguém pergunta o que sou da minha enteada e respondo madrasta, a cara de surpresa é indescritível. E logo vem uma enxurrada de frases como “vocês se entendem tão bem”, “ela gosta tanto de você”, “você a trata com tanto carinho”, e variações do gênero seguida por “nem parece que você é madrasta.”

Nem parece que você é madrasta é dita como elogio, afinal sempre imaginam uma madrasta perversa. Tanto que constantemente sou repreendida por falar que sou madrasta. “Ah, madrasta é uma palavra tão feia”, “diz que é tia”, “mãe postiça”, “mãe do coração”, “boadrastra”. E eu fico muito desconfortável. Na vida de uma criança cada um tem o seu papel. E o meu é de madrasta. Ser madrasta, portanto, é contestar, diariamente, o estereótipo da madrasta má e sofrer com os modelos apresentados pela Disney.

Longe dos contos infantis vemos exemplos de madrastas que maltratam seus enteados. Mas não precisa procurar muito para ler inúmeras notícias de familiares – pais, mães, irmãos, avós ou tios – que abusam, maltratam, agridem e humilham as crianças. Existem pessoas boas e más, independente dos laços e vínculos familiares. Em contrapartida, existem pessoas que têm amor e são capazes de amar. E só querem ser felizes e deixar felizes aqueles com quem convivem.

Portanto, não sejam preconceituosos. Não fiquem admirados quando se depararem com madrastas e enteados que se respeitam e gostam da companhia um do outro. Porque não é fácil lidar com olhares duvidosos e inseguros em relação ao tratamento dispensado a criança. Madrastas podem amar seus enteados, respeitá-los e se preocupar com o bem estar deles. Mesmo tendo consciência de que nunca irão usufruir das mesmas condições dos pais, avós e tios.

Mas, diante de todas as dificuldades que é ser madrasta, não há presente maior do que olhar para minha enteada e perceber que conquistei um espaço no coração dela e construímos uma relação de amor.

Crônica publicada originalmente em meu site pessoal.


Giseli Rodrigues

Especialista em Leitura e Produção de Textos, Gestão de RH e Gestão Empresarial. Professora. Escritora. Viciada em livros, viagens e chocolate. Fã de José Saramago e Amodóvar. Gosta de Arte Abstrata e rabisca com frequência. Tem um filho, escreveu um livro e plantou uma árvore. Mais textos podem ser encontrados em http://amorcronico.wordpress.com .
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