um país possível

nesse lugar tão frágil como o mundo

Cristina Parga

Autora de e "Qualquer areia é terra firme" (7Letras, 2015, romance), "Furta-cores" (2012, 7Letras, contos) e dos livros de não ficção "Rio ao ar livre" e "Cidadão carioca" (ambos pela ArteEnsaio, no prelo).
Mestranda em Literatura, Assistente editorial, Escritora, Redatora, Revisora e Insone.

Livros + flores + cachorros + amigos + verão + cerveja = alegria <3

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    (Como) Ficar sozinho

    Como as antigas chinesas, minutos a sós debaixo d’água caçando pérolas, há um ganho em se mergulhar fundo no próprio mundo interno. Há um ganho em se estar sozinho. Sozinho, digo, sem ninguém à volta — independente de ter namorados, família, ou 6 flatmates.
    Escrever, sonhar acordado, o que for, sem notar se anoiteceu ou já é dia. Pensar ou tentar não pensar, sem interrupções.
    E viver aquele instante mágico em que estamos imersos em nós e de repente o mundo vem. Traz-nos à tona. E nos atravessa, preenche, assombra – como pérolas, nos encanta. Como se sentir só depois desse encontro?

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    Eu não me lembro do meu #primeiroassedio

    Semana passada, sob a hashtag #meuprimeiroassedio, fomos confrontados com histórias de vergonha, sofrimento, raiva e impotência que a naturalização da violência e opressão contra as mulheres obriga nossas meninas a passarem. Alguns relatos foram muito doloridos de ler; muitos homens ficaram surpresos/chocados que, em pleno 2015, esse tipo de agressão ainda ocorra diariamente com garotas de todas as faixas etárias, bairros e estratos sociais. Claro, para nós mulheres, não foi surpresa nenhuma. Supreendente mesmo foi perceber que é possível fazer barulho, e que juntas, nossas vozes têm muito mais força. Bom. A semana passou e não escrevi nada sobre o meu #primeiroassedio. Não por pudor, medo, vergonha, mas por uma razão simples: não me lembro. Não tenho a menor ideia de quando aconteceu o primeiro. Três, cinco. Sete? Nem faço ideia de quantos anos tinha. Tenho certeza de que muitas mulheres tiveram que arrancar lá do fundo do baú a história mais antiga de que conseguiam se lembrar. Eu não consegui lembrar do primeiro. Mas nunca esquecerei o mais traumático.

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    Como apoiar alguém em depressão – sem se afogar na tristeza do outro

    Se você acha que o seu amigo está em depressão e quer ajudá-lo, reúno aqui algumas dicas de quem já esteve dos dois lados da trincheira – apoiando e sendo acolhido.Talvez elas ajudem você a entender melhor o que seu amigo está vivendo; talvez elas te convençam que é possível se manter próximo.
    Se você tem um amigo claramente em depressão, não aguenta mais segurar essa onda e está se afastando cada vez mais, essas dicas também são para você. Você não TEM QUE ficar ao lado de ninguém – mas entender o que seu amigo está enfrentando pode diminuir sua frustração e sensação de impotência. Afinal, não é culpa sua, nem dele/dela, – e, provavelmente, de ninguém.
    Eu culpo (em parte) o mundo de relações descartáveis e a exigência de alta produtividade em que vivemos – às vezes nosso corpo/cérebro alma nos obriga a parar, nem que seja por uma doença visível ou silenciosa como a depressão.

    Somos humanos, às vezes simplesmente entramos em curto-circuito; ajudar quem passa por isso não é só caridade. Pode ser também uma forma de autoconhecimento.

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    Depressão II: Se minha vida é perfeita, por que me sinto assim?

    Triste nem é a depressão, é o contexto em que vivemos. Em que a única forma de sobreviver sem perder emprego/amigos/respeito é participando da máquina de produção, como todo mundo. E para aguentar, tomando ”remedinhos”, como todo mundo. Ou tomando todas na sexta à noite, como todo mundo. Ou passando o final de semana em casa vendo séries jogado no sofá, sem querer pensar. Não se enganem, cerveja, livros, drogas, música, sexo, filmes – cada um de nós tem o seu escape.
    Tem gente que para de funcionar. Se algum amigo seu está vivendo isso, aqui vão algumas dicas ajudá-lo de verdade – sem pegar a pessoa no colo, sem tentar resolver sua vida – e, sempre, se preservando de culpas e cargas emocionais que não são suas.

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    Depressão: quando o demônio não é tão feio assim

    “Com depressão, você não pensa que pôs um véu cinza e vê o mundo através da névoa do mau humor. Pensa que retiraram o véu da felicidade, e que agora você vê de verdade" – diz Andrew Solomon, em “O demônio do meio-dia”. O que ninguém fala, pois dessa doença não se fala – é o que o feio demônio pode revelar sobre nós. Ele nos recorda que somos frágeis, humanos. Nos obriga a sair da roda de hamster de produção e consumo e repensar no que realmente desejamos. E pode trazer à tona recursos internos submersos – e preciosos.

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    Ser estrangeiro aqui, ali – em qualquer lugar

    Ser estrangeiro é perder restos de bagagem pelo caminho – coisas que só percebemos quando voltamos. Mas, ao mesmo tempo, é ter sempre olhos de criança que acabou de chegar – e, por isso, até uma flor descuidada crescendo sem sentido no asfalto nos prende, até as árvores e seus galhos riscando desenhos contra o horizonte nos encanta. E é aí que se entende que dividir o peito em duas, três, quatro cidades pode até doer – mas vale muito a pena. É aí que se entende que, quando se perde uma cidade, um país, um amor – está-se sempre ganhando. Memórias. História. Intensidade e profundidade no sentir.

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    Wanderlust – essa vontade louca de partir para qualquer lugar

    Quem nunca sonhou em pôr a mochila nas costas e deixar para trás as ruas, travessas, casas, mirantes que tanto conhecemos – para se perder (e se reencontrar) em paisagens nunca imaginadas, ouvindo a música de línguas estrangeiras, descobrindo cheiros, sabores, olhares e costumes que nem sabíamos que existia? Quem nunca dormiu numa cama, em outra cidade a horas da própria e, ao acordar, sentiu aqueles segundos mágicos de não reconhecimento, de não ter ideia de onde se está?

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    Amor não é apego (nem sofrência, pfv)
    A questão é simples e complexa, segundo os budistas: amor de verdade não dói. Ele inunda o coração e se basta sozinho. Já o apego traz sofrimento, porque guarda dentro de si o medo da perda. Da rejeição. De "ficar sem a pessoa", de "ficar sozinho". O amor não pode ter medo de perder porque não perde nunca – ele existe indiferente da reciprocidade. Existe em si mesmo.
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    Quando o amor não é conveniente
    Não sei quando começaram a nos ensinar que caminhar sozinho era sinônimo de ser adulto – e que qualquer coisa diferente disso cheira a codependência ou a naftalina. Não sei quando nos ensinaram que a saída é partir para outra. Mas hoje a cartilha é clara: o amor não é suficiente, não pode vir em primeiro lugar.
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    Obrigada por ir embora
    Você deveria dar uma festa por ter se livrado daquele homem! Mal essa “pérola” saiu da minha boca, me assustei: só conhecia o ex da minha amiga a partir de relatos (obviamente enviesados) dela e, embora achasse que aquela era uma relação tóxica, quem sou eu para julgar? Felizmente ela deu gargalhadas com o comentário e me agradeceu pela força. Já eu, fiquei pensando no tema alguns dias. E percebi que aquela frase viera bem do fundo do meu inconsciente. Afinal, era tudo o que eu precisava ouvir sobre algumas pessoas que me deixaram. Pessoas a quem eu queria dizer: Obrigada por ir embora. Porque eu nunca seria capaz de te deixar.
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    Complexo de Frances Ha

    A infantilidade da Frances (e a minha, talvez por isso a identificação) é só superfície. Semblante. Porque ser adulto também é deixar ir e saber que a a vida muda, e aceitar; ter coragem para não embrutecer o coração perante as perdas. É das lascas e rachas no coração que vem o que nos faz humanos singulares e não robôs ou personagens de novela. Saber, como a Frances (que apesar da saudade, continua amando profundamente Sophie), que guardar mágoa e sabotar a felicidade de quem amamos é no mínimo antihumano – que é preciso aceitar as mudanças e continuar inventando passos, correndo com esperança pelo vem por aí.

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    Como lidar com um coração partido (sim, o seu)
    Ao longo dos anos, desenvolvi vários métodos para cicatrizar meu coração, que virou quase uma colcha de retalhos – ou melhor, um mosaico – aparentemente frágil, mas com as peças perfeitamente coladas e coloridas. Desde o meu primeiro break-up aos 18 anos, sozinha em Portugal, até o último, com 32, aprendi várias técnicas para amenizar a dor – a maior parte delas não inclui analgésicos nem calmantes, nada que precise de receita médica. São coisas simples – o que traduzi há poucos dias para uma amiga como "kit de primeiros socorros". E a primeira lição a aprender é: o que não colocar dentro dele – ou melhor, o que não fazer:
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    Quando as pessoas começam a fazer análise

    Não, este não é um texto antianálise. Sou adepta e cresci muito no divã. Comecei esse texto porque, de uns tempos pra cá, fui me deparando com um fenômeno singular: amigos/conhecidos que começaram a fazer análise e sumiram, ou que pareciam não ouvir nada que não tivesse relação com o que desejavam, que não estavam ali – imersos nos seus projetos, vitórias, realizações individuais. Como se a lógica de consumo, descarte e investimento também devesse ser aplicada às relações pessoais, em nome de um ego fortalecido contra os perigos do mundo e dos Outros. É esse o objetivo de deitar no divã – ou essa é só uma breve fase de encantamento por si próprio, pelo próprio desejo, uma cegueira temporária para as necessidades e descobertas que o Outro oferece?
    Como uma boa psicanalista (que não sou, atenção) não tenho respostas para dar aqui – tenho perguntas.

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    As mulheres de Francesca

    Em 1981, com apenas 22 anos, Francesca Woodman suicidou-se – deixando uma obra fotográfica composta maioritariamente por autorretratos femininos, impenetráveis e, ao mesmo tempo,fantasmagoricamente irresistíveis. Como num jogo de sedução, a modelo se esconde e revela pela lente da câmera, capturando uma infinidade de mulheres que nos observam de algum espaço-tempo a que não temos acesso – que nos encaram quase no milésimo de segundo antes de se dissolverem e escaparem à nossa compreensão.

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    E se o que chamamos de coragem tiver raízes na covardia?

    E se no que chamamos de coragem ou força está escondido um medo enorme de ser excluído, de "perder"no "jogo da vida"?

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