um país possível

nesse lugar tão frágil como o mundo

Cristina Parga

Autora de e "Qualquer areia é terra firme" (7Letras, 2015, romance), "Furta-cores" (2012, 7Letras, contos) e dos livros de não ficção "Rio ao ar livre" e "Cidadão carioca" (ambos pela ArteEnsaio, no prelo).
Mestranda em Literatura, Assistente editorial, Escritora, Redatora, Revisora e Insone.

Livros + flores + cachorros + amigos + verão + cerveja = alegria <3

E se o que chamamos de coragem tiver raízes na covardia?

E se no que chamamos de coragem ou força está escondido um medo enorme de ser excluído, de "perder"no "jogo da vida"?


(moz.jpg(...) o que chama­mos de ‘coragem’ muitas vezes tem suas raízes em uma forma de covardia: para comprová-lo, basta lembrar todas as situações em que, para lograr atos como matar, torturar ou violentar, a vontade de dominação, de exploração ou de opressão baseou-se no medo ‘viril’ de ser excluído do mundo dos ‘homens’ sem fraquezas, dos que são por vezes chamados de ‘duros’ porque são duros para com o próprio sofrimento e sobretudo para com o sofrimento dos outros. Bourdieu

Outro dia vi um meme qualquer na internet que comparava a bondade ao blush – é preciso usar com parcimônia para não terminar com cara de palhaço. Confesso que meu primeiro instinto foi rir. Assim que a graça acabou, (e foi rápido), a frase ficou ecoando e, como uma madeleine, puxou da memória uma época em que discutia vezes sem conta com um ex, que sempre me acusava de não querer "vencer", ou que lamentava a minha "bondade". Era uma pena, ele dizia, mas se eu continuasse assim, seria "engolida pelo mundo". Para ele a vida era uma maratona e não dava para fazer nenhum pitstop e ajudar quem caísse – aliás, quem caía era por incompetência; precisava se levantar sozinho ou se habituar com o chão. A vida se encarrega disso, ele dizia.

No caso específico do meu ex, que era de longe das pessoas mais generosas que já conheci (e que nem sequer se dava conta) – a criação justificava a forma de pensar. Desde criança ele se sentia responsável por conquistar um patrimônio para toda família, e nessa luta estava completamente sozinho. Era quase ele contra o mundo – e eu lembro dos trabalhos voluntários, de como ele ajudava quem se esforçava para "ganhar também". Para mim era compreensível, mas impossível sentir o mesmo. Nunca passei grandes apertos financeiros. Nunca realmente acreditei que me faltaria alguma coisa no futuro para ter pressa de sair conquistando algum posto alto, ou ter medo de dividir o sucesso com alguém. Não é que tenha nascido em berço de ouro. Também não é que não tenha sido criada para ser o primeiro lugar. Eu fui. Mas desde cedo fugi disso.

Desde pequena odeio competições e sempre pensei no vazio que deve sentir alguém que tem o objetivo de ser o n. 1 – e consegue. Ficar sozinho no pódio deve significar 2 segundos de alegria enquanto estoura o champanhe – e o resto de uma vida de tédio ou luta sem fim para conquistar novos troféus. Ou seja, alem de solitário, ser o "vencedor" sempre me pareceu um prazer efêmero e desgastante. Sempre achei que era mais divertido dividir o pódio em conquistas conjuntas – que signifiquem um bem, material ou não, que alcance mais gente além de você mesmo. É no mínimo mais gratificante. É como beber champanhe, ou comemorar qualquer coisa – sozinho não tem nem 1/3 da graça.

Por isso o meme me lembrou da promessa que tinha feito a mim mesma na época: que era possível vencer com doçura, compaixão e bondade. Que meu objetivo seria vencer sem me vender – vencer não pela gana de galgar postos, somar pontos, passar à frente. Competir não meramente com os outros, mas com os meus próprios limites. Ter como meta não só conquistas materiais ou postos efêmeros, mas a autossuperação.

Não sendo nem Buda, nem Allah nem Jesus, o caminho não foi natural e aprendi algumas coisas também. Primeiro que até bondade tem limite - quando vira abnegação ou falta de cuidado consigo mesmo, é uma forma tortuosa de autoflagelo. Bizarro, mas tem muito por aí e é fácil cair por esse caminho e ainda se sentir "o messias". Segundo: que existe uma grande diferença entre bondade, justiça e compaixão. Todos são válidos, mas cada um deve ser usado no momento certo, e não aleatoriamente. Por exemplo: obrigar alguém que ainda não está preparado a aceitar ajuda tem o seu quê de perverso, é uma forma de violência. Terceiro: se ajudar o colega implica em prejudicar o outro, ou a si mesmo, então não é uma bondade nem justa nem eficiente, não é mesmo? E outra: às vezes os grandes atos de generosidade surgem de uma necessidade de receber gratidão, ou seja, de agradar o próprio ego. (O que não invalida o bem feito ao outro, claro). Como já disse, não somos Anjos nem estamos próximos de ser Madre Teresa: temos um ego, precisamos dele para estar no mundo. Mas a compaixão e bondade é mais gratificante quando não se espera retorno. Quando não exige gratidão. Aí é quase como o amor verdadeiro. Que se basta, é infinito e se alimenta de si próprio – não precisa do outro. Uma utopia, talvez – mas algumas utopias valem a pena serem sonhadas.

Se pensarmos um pouco, é preciso muita coragem e força interior para sentir compaixão e agir conforme ela manda. É preciso no mínimo ser forte para sentir a dor dos outros na pele, e continuar inteiro, e continuar amando, continuar criando. É um mundo cão, verdade – mas não é só com armas que se vence. O mundo não destrói quem não se abandona, quem finca o pé e insiste apesar de todos os contras. Quem inventa e se reinventa. Quem não se apega às conquistas individuais e prefere apostar na liberdade de ajudar todo mundo a sair ganhando. Se é totalmente impossível, ok. Mas quem ousa fazer o pit stop para ajudar o coleguinha que caiu, tem, no mínimo, coragem de pensar por si próprio e coragem para desafiar as regrinhas desse jogo da vida.

ou, como dizia o profeta Morrissey - it's easy to laugh, it's easy to hate it takes guts to be gentle and kind


Cristina Parga

Autora de e "Qualquer areia é terra firme" (7Letras, 2015, romance), "Furta-cores" (2012, 7Letras, contos) e dos livros de não ficção "Rio ao ar livre" e "Cidadão carioca" (ambos pela ArteEnsaio, no prelo). Mestranda em Literatura, Assistente editorial, Escritora, Redatora, Revisora e Insone. Livros + flores + cachorros + amigos + verão + cerveja = alegria .
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