um país possível

nesse lugar tão frágil como o mundo

Cristina Parga

Autora de e "Qualquer areia é terra firme" (7Letras, 2015, romance), "Furta-cores" (2012, 7Letras, contos) e dos livros de não ficção "Rio ao ar livre" e "Cidadão carioca" (ambos pela ArteEnsaio, no prelo).
Mestranda em Literatura, Assistente editorial, Escritora, Redatora, Revisora e Insone.

Livros + flores + cachorros + amigos + verão + cerveja = alegria <3

As mulheres de Francesca

Em 1981, com apenas 22 anos, Francesca Woodman suicidou-se – deixando uma obra fotográfica composta maioritariamente por autorretratos femininos, impenetráveis e, ao mesmo tempo,fantasmagoricamente irresistíveis. Como num jogo de sedução, a modelo se esconde e revela pela lente da câmera, capturando uma infinidade de mulheres que nos observam de algum espaço-tempo a que não temos acesso – que nos encaram quase no milésimo de segundo antes de se dissolverem e escaparem à nossa compreensão.


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Quase como um statement do feminino. Nos autorretratos de Francesca Woodman, o corpo escorre em traços contínuos, fluidos – ilusórios – camuflando-se no background como um objeto decorativo, imóvel – porém pulsando em movimento. Desnudando-se para a câmera, as mulheres de Francesca transcendem o real e secretam, ante o observador atônito, a seiva de uma vida interior, hipnótica e turva. Os flashes de luz captam relâmpagos da psiche aflorando à superfície da pele. A psiche difusa, silente, fugidia.

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A mulher erva daninha, intensa e inteira, sublunar. Quieta e escura como a pérola, que se desenvolve lenta e anônima no interior ósseo das ostras. A mulher sem nome, que empresta seu corpo ao ethos do ambiente, deixado-se invadir pelas rugas da parede, a poeira do chão, a casa em ruínas. Que, como mariposa noturna, se deixa confundir com a textura rugosa dos troncos de árvores – para preservar de olhares, mãos e prisões, o seu viver subterrâneo.

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Francesca Woodman imprime, no filme fotográfico, imagens do feminino inconsciente que encanta, envenena, enlouquece o observador e o modelo. Seus retratos caminham da exploração tátil do corpo e do entorno para a gradual fusão entre os dois. Testemunhando, em imagens simbólicas, toda violência desse "encontro".

Essas femmes nos surpreendem num segundo de deslocamento do vazio à volta, que ocupa, preenche e possui, infalivelmente, todos os sítios da sua alma. Elas nos olham no milésimo de segundo antes da destruição, quando irão cumprir o destino da lenta dissolução e desaparecimento.


Cristina Parga

Autora de e "Qualquer areia é terra firme" (7Letras, 2015, romance), "Furta-cores" (2012, 7Letras, contos) e dos livros de não ficção "Rio ao ar livre" e "Cidadão carioca" (ambos pela ArteEnsaio, no prelo). Mestranda em Literatura, Assistente editorial, Escritora, Redatora, Revisora e Insone. Livros + flores + cachorros + amigos + verão + cerveja = alegria .
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