um país possível

nesse lugar tão frágil como o mundo

Cristina Parga

Autora de e "Qualquer areia é terra firme" (7Letras, 2015, romance), "Furta-cores" (2012, 7Letras, contos) e dos livros de não ficção "Rio ao ar livre" e "Cidadão carioca" (ambos pela ArteEnsaio, no prelo).
Mestranda em Literatura, Assistente editorial, Escritora, Redatora, Revisora e Insone.

Livros + flores + cachorros + amigos + verão + cerveja = alegria <3

Quando as pessoas começam a fazer análise

Não, este não é um texto antianálise. Sou adepta e cresci muito no divã. Comecei esse texto porque, de uns tempos pra cá, fui me deparando com um fenômeno singular: amigos/conhecidos que começaram a fazer análise e sumiram, ou que pareciam não ouvir nada que não tivesse relação com o que desejavam, que não estavam ali – imersos nos seus projetos, vitórias, realizações individuais. Como se a lógica de consumo, descarte e investimento também devesse ser aplicada às relações pessoais, em nome de um ego fortalecido contra os perigos do mundo e dos Outros. É esse o objetivo de deitar no divã – ou essa é só uma breve fase de encantamento por si próprio, pelo próprio desejo, uma cegueira temporária para as necessidades e descobertas que o Outro oferece?
Como uma boa psicanalista (que não sou, atenção) não tenho respostas para dar aqui – tenho perguntas.


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Comecei a pensar na relação entre início de análise e uma mudança de atitude em relação ao Outro nos novos analisandos há algum tempo. Levei outro tempo sem saber o que pensar. Que respostas encontrar. Até que cheguei à conclusão que não há resposta. Há perguntas. Há dúvidas. Há curiosidade pelo processo analítico dos outros. E há medo – medo sincero que alguns tipos de análise ou de profissionais sirvam como um reforço para o egoísmo, a competitividade, o consumo e descarte do Outro que a sociedade nos ensina desde sempre.

Quando comecei a escrever tinha em mente alguns exemplos específicos, mas logo fui lembrando de vários casos – pessoas que encontraram no psicólogo um coaching que reforça objetivos pessoais. Que descobriram no analista alguém que aplaude reviravoltas corajosas (o que é ótimo, diga-se de passagem). Que os incentiva a bancar o próprio desejo, independente de tudo. Independente do Outro. Afinal, o analista está ali para tratar da psychê do paciente – os outros que paguem profissionais para tratar das suas.

Aí está a linha tênue entre focar no próprio bem-estar e só focar nisso, esquecendo as necessidades do mundo que nos rodeia.

Faço análise há mais de 20 anos, com algumas temporadas de pausa e mudanças estratégicas de terapeuta. Conheço pessoas como eu, íntimas do divã desde criancinhas – e não identifico nada disso nelas. Talvez uma lucidez, uma objetividade, uma sobriedade em relação à vida e ao que se pode esperar dos outros; talvez uma praticidade na resolução de problemas, ou um maior autoconhecimento – que leva, claro, a uma maior autoproteção. Mas não vejo esse medo da abertura para o Diferente. Ao contrário; com anos de análise a pessoa se conhece bem, sabe quais são os seus limites e por isso não vê o Outro como ameaça – e sim como mais uma oportunidade de crescimento. Independentemente das diferenças pessoais; independente dos problemas alheios – que são vistos como desafios e mais uma oportunidade de uma maior compreensão das emoções humanas, uma expansão no entendimento do mundo. Nada desvia a atenção da pessoa realmente autocentrada, que é madura o suficiente para saber que só se está bem se quem está à nossa volta também está.

A princípio achei que era leviana e até meio cega a minha reflexão. Cega pela quantidade de vezes que assisti esse filme: grandes amigos que desaparecem (ou cortam relações) assim que começam a análise. Diferente de quando um amigo "some" porque está namorando ou trabalhando muito, aqui há uma queixa: a amizade não é "produtiva", a pessoa tem coisas para fazer e não pode "perder tempo"; o Outro tem muitos problemas e a pessoa já tem os dela para dar conta etc etc. A tônica é sempre no individualismo, num pensar em si próprio antes de tudo; parece que amigos são legais de se manter quando retornam o "tempo perdido" com alguma ideia/contato relevante ou que, só por terem sucesso, já agregam valor pela companhia. Como se fosse perda de tempo, esforço e energia "investir" na amizade com alguém que não sabe bem o que quer da vida, que está meio perdido, que está à procura sabe-se lá do quê. Alguém mais conhecido como loser. Ao mesmo tempo...

Ao mesmo tempo, quem ainda está perdido e à procura está aberto ao novo. Aberto a conhecer as pessoas e apreciá-las por aquilo que são, seja lá o que forem – não pelo "retorno" que elas dão. Essa lógica consumista, que joga fora o que parece não funcionar ou "estar feio" no momento representa um desperdício enorme de uma oportunidade de crescimento quando aplicado a relações. Se está feio, será que não vale a pena pensar o motivo? Por que não está funcionando? Por que o amigo que era seu companheiro de vida agora simplesmente te irrita só por respirar? Por que não meditar e procurar respostas, respirar fundo e tentar entender o Outro – em vez de simplesmente descartá-lo?

Antes de escrever este texto, pedi a opinião da minha analista. Ela concordou que é bastante comum as pessoas se tornarem mais autocentradas quando começam a análise. E que, sim, para determinadas personalidades, há um saltinho inicial para o individualismo e até egoísmo. Passa com o tempo e o trabalho terapêutico – ela disse.

Só acho triste quando a psicanálise, tão centrada no desejo do sujeito, incentiva quem está no divã a ir em frente e bancar o que quer, sem medir as consequências para o Outro. Acho triste quando qualquer tipo de terapia aplaude o egoísmo. Quando deixa nós, humanos, reduzidos a máquinas produtivas e focadas em ser o primeiro lugar, o vencedor – quando reforça o que a sociedade já nos cobra normalmente. Se conhecer melhor, ampliar seus limites, se abrir para o mundo – não deveriam ser esses alguns dos principais objetivos do processo analítico? Onde fica tudo isso?


Cristina Parga

Autora de e "Qualquer areia é terra firme" (7Letras, 2015, romance), "Furta-cores" (2012, 7Letras, contos) e dos livros de não ficção "Rio ao ar livre" e "Cidadão carioca" (ambos pela ArteEnsaio, no prelo). Mestranda em Literatura, Assistente editorial, Escritora, Redatora, Revisora e Insone. Livros + flores + cachorros + amigos + verão + cerveja = alegria .
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