um país possível

nesse lugar tão frágil como o mundo

Cristina Parga

Autora de e "Qualquer areia é terra firme" (7Letras, 2015, romance), "Furta-cores" (2012, 7Letras, contos) e dos livros de não ficção "Rio ao ar livre" e "Cidadão carioca" (ambos pela ArteEnsaio, no prelo).
Mestranda em Literatura, Assistente editorial, Escritora, Redatora, Revisora e Insone.

Livros + flores + cachorros + amigos + verão + cerveja = alegria <3

Complexo de Frances Ha

A infantilidade da Frances (e a minha, talvez por isso a identificação) é só superfície. Semblante. Porque ser adulto também é deixar ir e saber que a a vida muda, e aceitar; ter coragem para não embrutecer o coração perante as perdas. É das lascas e rachas no coração que vem o que nos faz humanos singulares e não robôs ou personagens de novela. Saber, como a Frances (que apesar da saudade, continua amando profundamente Sophie), que guardar mágoa e sabotar a felicidade de quem amamos é no mínimo antihumano – que é preciso aceitar as mudanças e continuar inventando passos, correndo com esperança pelo vem por aí.


mistakes_francesha.png

Discutindo sobre Frances Ha uma vez com amigos próximos, descobri surpresa que todos achavam a personagem extremamente infantil – na verdade, o retrato de uma geração (a nossa) infantilizada, que prefere dançar nas ruas e treinar passinhos de coreografia a tomar um rumo certo e finalmente se declarar adulta. Adulto(a) meaning: independente financeira e emocionalmente, com objetivos claros e ambições materiais traçadas; amizades consolidadas em jantares e brunchs mensais; em happy hours semanais em que se fala das próprias conquistas e se posta fotos no facebook e no instagram, modelando a própria imagem como a de alguém bem-sucedido. É, ser adulto também é ser bem-sucedido – ou pelo menos fingir bem e sorrir na foto. Ou tentar very hard, assim ao menos você pode contar com a piedade dos mais bem-afortunados.

Eu era a única do grupo a não concordar que o principal traço da Frances era ser infantil. Não no âmago. Sua estética, seu gestual e sua curiosidade certamente são – o que lhe dá ainda mais encanto num mundo de pessoas cinzentas dominadas pelo mantra "I've seen at all" – ou "isso foi hype em 2004" ( aliás, que termo se usa pra hype/hipster agora? estes certamente já estão datados).

Eu era a única – e agora entendo minha surpresa – por estar vivendo um enredo semelhante: trabalho muito, continuo pedindo ajuda a meus pais todo mês; não acho que arrumar um namorado/marido vá magicamente preencher minha vida e meus ambições criativas e emocionais (minha definição de amor e de realização interna são mais vastas e interdependentes);

E, o principal: sim, também "perdi" minha amiga-irmã – desde que, como Sophie, ela arranjou um namorado e um novo grupo de amigos e novos projetos e planos onde eu não consegui me encaixar.

Veja bem, a culpa não é dela : eu é que não consegui me encaixar, repito. Acontece com todo mundo pelo menos uma vez na vida, já me disseram, e eu acredito.

Gradually and suddenly: de repente passaram meses e anos que não varamos mais madrugadas ouvindo música, vendo séries e inventando histórias; de repente não reconheço mais o cheiro da casa dela, nem ela da minha; fazemos visitas pontuais: ou quando uma está muito mal, ou em reuniões com mais gente regadas a cerveja onde ninguém fala de verdade com ninguém. De dia eu trabalho, de noite ela tem a vida adulta conjugal, que está em primeiro lugar – e ela está certíssima.

Eu certamente faria o mesmo se fosse adulta. E sim, por mais que sinta a falta, fico feliz por ela.

O que mais sinto saudade é de quando nos divertíamos juntas. Triste só poder contar com a companhia dela quando estou mal – e parece que estou sempre mal, mas não, acordo muitos dias alegre e feliz, e queria partilhar isso – mas ela está tão longe.

A infantilidade da Frances (e a minha, talvez por isso a identificação) é só superfície. Semblante. Porque ser adulto também é deixar ir e saber que a a vida muda, e aceitar; ter coragem para não embrutecer o coração perante as perdas. É das lascas e rachas no coração que vem o que nos faz humanos singulares e não robôs ou personagens de novela. Saber, como a Frances (que apesar da saudade, continua amando profundamente Sophie), que guardar mágoa e sabotar a felicidade de quem amamos é no mínimo antihumano – que é preciso aceitar as mudanças e continuar inventando passos, correndo com esperança pelo vem por aí.

eu escreveria mais, mas termino com Belle and Sebastian: my anger always turns to pity and to love


Cristina Parga

Autora de e "Qualquer areia é terra firme" (7Letras, 2015, romance), "Furta-cores" (2012, 7Letras, contos) e dos livros de não ficção "Rio ao ar livre" e "Cidadão carioca" (ambos pela ArteEnsaio, no prelo). Mestranda em Literatura, Assistente editorial, Escritora, Redatora, Revisora e Insone. Livros + flores + cachorros + amigos + verão + cerveja = alegria .
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/recortes// @destaque, @obvious //Cristina Parga