um país possível

nesse lugar tão frágil como o mundo

Cristina Parga

Autora de e "Qualquer areia é terra firme" (7Letras, 2015, romance), "Furta-cores" (2012, 7Letras, contos) e dos livros de não ficção "Rio ao ar livre" e "Cidadão carioca" (ambos pela ArteEnsaio, no prelo).
Mestranda em Literatura, Assistente editorial, Escritora, Redatora, Revisora e Insone.

Livros + flores + cachorros + amigos + verão + cerveja = alegria <3

Obrigada por ir embora

Você deveria dar uma festa por ter se livrado daquele homem! Mal essa “pérola” saiu da minha boca, me assustei: só conhecia o ex da minha amiga a partir de relatos (obviamente enviesados) dela e, embora achasse que aquela era uma relação tóxica, quem sou eu para julgar? Felizmente ela deu gargalhadas com o comentário e me agradeceu pela força. Já eu, fiquei pensando no tema alguns dias. E percebi que aquela frase viera bem do fundo do meu inconsciente. Afinal, era tudo o que eu precisava ouvir sobre algumas pessoas que me deixaram. Pessoas a quem eu queria dizer: Obrigada por ir embora. Porque eu nunca seria capaz de te deixar.

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Às vezes nos vemos no epicentro de relações tóxicas das quais não conseguimos nos libertar – seja por medo, pena, paralisia, masoquismo, negação de que há algo errado, negação de que está tudo errado. Há pessoas (como eu) que acreditam que devem lealdade eterna aos amigos (antes) próximos, mesmo se a amizade virou um compromisso burocrático, com uma proximidade protocolar. Sabe aquele amigo da escola que só curte noitadas e encontros regados a álcool enquanto você acorda cedo para fazer yoga e no café da manhã reveza o suco verde com o rosa e o amarelo? Sabe aquela amiga com quem você passava madrugadas rindo e falando bobagens e, de uns tempos pra cá, só consegue manter uma conversa que envolva o projeto profissional dela, a dieta nova, o treino na academia ou, no caso de mães, fraldas, bebês e todo um universo que você desconhece e onde não consegue entrar?

Vocês se encontram, seu BFF fala, fala e você só escuta, tentando entrar no mundo dele. Fazer parte. Reforçar o vínculo.

Só que tem horas em que você se cansa de tentar; afinal, não parece haver o mesmo esforço da outra parte. E aí você se pergunta: se não temos mais tanta afinidade, por que insisto em encontrar essa pessoa?

Porque, pelo menos para você, as afinidades podem ir embora – mas o afeto não.

Então você se arruma e sai para encontrar seu amigo, e mais uma vez volta para casa com um sabor amargo na boca. Você estava normal quando chegou; seu coração sai pesado do encontro. Do nada você se sente inadequado, preocupado com as escolhas do amigo que ama, triste porque não há mais uma verdadeira compreensão mútua. Ou frustrado por ter perdido uma tarde para falar futilidades, quando o que esperava era a intimidade, compreensão e a validação de antes.

Opa. Validação. Tem algo errado aí.

Quando numa relação de qualquer tipo – romântica, de amizade – alguém precisa não só do apoio, mas da validação do outro, um sinal vermelho dispara.

Se você é inseguro e tem problemas de autoestima, já tem questões suficientes para lidar – peça ajuda de um terapeuta, de preferência, não dos amigos. Agora, se o seu BFF, mesmo inconscientemente, alimenta essa insegurança e cobra que você seja “assim ou assado”, ou como “sempre foi” – aí a dinâmica complica.

Afinal, relações deveriam ser pautadas não só pelo afeto – mas pelo respeito profundo e interesse verdadeiro na evolução do outro. Independente do quão diverso do seu seja o caminho que o outro escolheu.

Se você, como eu, tem essa tendência à lealdade eterna, pode passar anos engolindo sapos, fechando os olhos para os sinais de que uma relação não é mais tão saudável quanto já foi. Você tem dificuldade em ir embora; acha que sua presença pode ser necessária, e que afastar quem já viveu tanta coisa linda com você é o mesmo que uma traição. Quando o outro se afasta, você

• passa noites e noites tentando descobrir o que fez de tão imperdoável;

• pensa que não é tão importante quanto os novos amigos/namorados da pessoa;

• acha que a pessoa está cega (ou que alguém virou a cabeça dela) por jogar no lixo anos de amizade;

• acha que foi uma grande idiota por acreditar no afeto de alguém que não estava nem aí;

• ou...milhares de ous, não é? (completem pra mim, por favor)

Nesse turbilhão mental, fica difícil enxergar o que está bem ali à nossa frente. Imersos nesse drama, deixamos escapar a oportunidade de aprender uma importante lição – nem que seja para se relacionar com as próximas pessoas que entrarem na nossa vida. No meu caso, quando a poeira baixou, percebi que da outra parte havia mais mágoa e sentimentos negativos em relação a mim do que afeto.

“Perder BFFs” me fez refletir sobre muitas coisas, que resumo aqui para vocês. Coisas simples; mas até o coração incorporar, pode levar tempo. Respeite o seu timing interno, mas não sufoque mágoas à toa – agradeça às lições da vida e let it go:

Coisas para se pensar:

1-Amizade vs “sintonia”(ou, trocando em miúdos, utilidade): cassieandmichelle.jpgTalvez você tenha sido importante e necessário por n motivos em certos momentos da vida do seu ex-BFF; talvez agora não seja mais. Se não houver afeto suficiente para que a pessoa queira ficar na sua história, então talvez a amizade não fosse tão forte assim. Você já pensou nisso? Pense. E respire em paz: a culpa não é sua :)

3-Friends ou frenemies? hurt the most.jpgAté que ponto seu BFF se comporta como tal nos últimos tempos? Ele aplaude os seus sucessos, ou fica na dele quando pode te ajudar com contatos? – enquanto você faz publicidade gratuita e de coração de qualquer projeto dele, se sentindo quase cobrado para isso? Levanta a bola e a autoestima da pessoa o tempo todo, sem retorno?

(Isso acontecia comigo, que, claro, nem reparava. Até que alguém de fora da relação começou a listar todas as vezes em que precisei da presença e apoio da pessoa, que não se esforçava nem para elaborar desculpas credíveis para sua ausência. Não vou dar exemplos para não expor ninguém. Mas você, leitor, pode parar e pensar: sabe aquele dia importante, aquele lançamento, aniversário, abertura de exposição, festa em que você poderia ser apresentada ao cara ou à garota que estava a fim, ou a um contato profissional? Seu amigo esqueceu, ou fez a egípcia, foi e não te chamou – ou será que estava chovendo muito naquele dia – e o netflix em casa era mais tentador do que apoiar você?)

4- Nada do que você faz é bom o suficiente is it enough.jpg Sempre que se encontram, você passa metade do tempo pedindo desculpas e ouvindo críticas sobre o que fez de errado, ou conselhos do que deve ou não fazer/dizer/vestir; parece que nada do que você diz ou faz é suficiente para ser digna da companhia deles. Você se sente no colégio tentando agradar a garota mais popular para não sofrer bullying. Querendo o apoio de quem não vai aprovar seu jeito de ser, suas ambições e desejos – porque não combinam com os deles, ou por que....sei lá. Aconteceu comigo. O mais estranho é que antes, meu jeito, desejos e sonhos eram ouvidos e portanto (calculo), eram no mínimo toleráveis – e de repente, passaram a incomodar. O mais estranho é que essa mudança coincidiu com o momento em que deixei de ser “útil”. Sempre que eu ligava sentia que estava incomodando; várias vezes era chamada de  "intensa" demais, "cheia de problemas" – alguém que só trazia “preocupação”... Demorou várias sessões de análise para perceber que a falta de empatia e disponibilidade da outra parte não era um problema meu.

5-Seu BFF acha que você não "agrega valor". 

individualismo.jpgVivemos num mundo baseado numa lógica individualista, em que somos treinados para mirar apenas as próprias conquistas e a se unir apenas a quem pode contribuir para o nosso sucesso. Para quê perder tempo com quem tem questões existenciais, não tem hype ou não pode ajudar na caminhada triunfal rumo à fama e riqueza, não é mesmo?

Eu entendo, é difícil ir contra a corrente. Entendo, aceito, mas me recuso a ser assim. Para mim, conviver com a alteridade e estar com pessoas só pelo prazer da companhia delas é uma das partes mais enriquecedoras de estar viva nesse planeta.

E a lição mais importante:

6-LET GO:

Pessoas são e devem ser livres para escolherem com quem querem estar. Respeitar o desejo do outro de não estar com você é uma das maiores provas de afeto incondicional que você pode dar (não ao outro, que já foi embora – mas a si mesmo). Exercitar esse tipo de amor, sem cobranças e obrigações, é um treino para um dia dominar a arte de ir e vir, de largar situações que não lhe fazem bem, de amar em liberdade – e não por pena, hábito, porque “precisam de você” ou porque “sempre foi assim”.

Pontos positivos para refletir (e agradecer):

1-Você não precisa mais embarcar na vibe negativa do outro: oitnb.png nem ficar horas numa mesa de bar ouvindo o que fulano e sicrano fez, como fulano e sicrano (que você não conhece) é ridículo, e voltar pra casa sufocada, sugada por tanta maledicência. No meu caso, os alvos mudavam a cada mês, eu me sentia mal e culpada por não conseguir compactuar; pior, achava bizarro como, na semana seguinte, essas pessoas apareciam abraçadas em fotos de redes sociais.

2- Você não tem que pedir desculpas pelo que não controla:

Ano passado fiz um tratamento meio punk e, por causa dos remédios e da fragilidade do corpo mesmo, era comum passar mal em festas ou ter uma sensibilidade maior às mais pequenas coisas. No início até recebi apoio, mas rapidamente comecei a ser tratada como inconveniente, algo pesado de se carregar, como se fizesse de propósito para chamar atenção. Claro – quem não quer ter depressão e tomar remédios cheios de efeitos colaterais, não é mesmo? Hoje em dia, fico aliviada por não ter que pedir desculpas por ser ultra sensível, ou por ter reações “desproporcionais” e chorar por qualquer motivo.

3- Tchau, sapos: criticas.jpg Você não precisa perdoar a terceira, quarta, quinta humilhação em público. Aliás, você não precisa mais passar por isso! No meu caso, brigas, ofensas e farpas em público sempre me pegavam desarmada porque vinham daqueles em que confiava 100%. Eu saía sem entender de onde vinha tanta raiva e obviamente desculpava tudo no dia seguinte. Até para não ter que lidar com os motivos obscuros que levavam alguém que eu amava a agir em certos momentos como se eu fosse um inimigo a abater.

4- Sabe aquele vestido que o seu BFF diz que te deixa mais gorda/mais magra/ esquisita (e você adora mesmo assim)? Tá na hora de vestir: roupas.png Roupa aqui foi um exemplo de algo que normalmente se estende para outros campos. Hoje posso pensar com mais liberdade no que quero para a minha vida – sem ter que ouvir que estou no emprego errado, que meu plano de carreira é datado, que se continuar assim nunca vou ficar rica ou famosa (como se eu quisesse?), nem conhecer as pessoas certas (quem?, o Neil Gaiman, a Beyoncé, a Lena Dunham, o Seinfeld?) PLEASE.

5- Você não tem que ser de um determinado jeito para fazer parte da gangue: meangirls.png Aliás, quem disse que você tem que fazer parte de uma gangue? É um alívio poder pintar o cabelo da cor que quiser ou ficar meses sem ir ao cabeleireiro sem ouvir "reflexões" sobre isso nem ter que dar justificativas para explicar de onde tirei essa "estética"; não preciso estar em dia com as tendências e posso me vestir like a grandma – com orgulho. Sem ouvir críticas de quem deveria me puxar para cima.

6-Sua vida amorosa é só sua e ninguém tem direito de dar pitaco ou jogar areia

“Esse cara é muito playboy; é muito novo; muito velho; antissocial; mora longe, só quer te comer”. “O que você viu nele?” .“O que você viu nessa sua nova amiga? Ela é “estranha”, “chata”, “não se veste bem”, “É um fracasso na internet”, "dá em cima do namorado de todo mundo” etc. – Tão bom não precisar mais ouvir isso!

7-Ninguém mais vai desvalorizar os seus sentimentos

pessoafria.jpg Nem classificá-los-os de exagerados ou “desproporcionais”.

E daí que eu só fiquei com o cara duas vezes, me apaixonei e estou sofrendo – não é para tanto? E daí que meu pai está com câncer mas o prognóstico é positivo então eu não deveria estar chorando? – e daí que minha sobrinha ainda nem nasceu e portanto eu não deveria estar tão eufórica? Quem sente a dor ou a alegria sou eu. Ninguém mais vai questionar meus sentimentos ou me convencer que estou overreacting. O coração é meu, ora.

8- Acabaram as piadinhas com o que é importante para você: 

expectations.jpgLevo minha espiritualidade a sério e, além disso, sou doente de tão empática – como uma esponja, absorvo naturalmente as dores dos outros, e por isso, às vezes preciso de algum tempo quieta num canto para me recuperar. Era muito desconfortável ouvir piadinhas ridicularizando minhas crenças, ou dizendo que essa coisa de wicca e macumba é muito new age.

E agora, a melhor parte (sim, porque descobri várias coisas que não sabia sobre mim; você também pode fazê-lo):

1- Timidez não impede ninguém de fazer novos amigos

making friends.jpgAo contrário; pessoas com uma sintonia mais parecida com a minha têm se aproximado. Gente que compartilha comigo leituras; que respeitam minha espiritualidade; que são empáticas quando tive um dia ruim; veem mais do que a minha roupa, o enquadramento da minha foto de perfil, o meu estilo. Pessoas que não ganham nada de concreto ao se juntarem a mim – apenas a minha companhia. Não, você não precisa de intermediários para fazer amigos porque “é tímido”. E não, ser tímido ou ter fobia social não é um DEFEITO.

2-Você vai descobrir que é uma ótima companhia (para os outros e para si mesmo):

aloneandhappy.jpg Você vai começar a curtir fazer coisas all by yourself e perceber que não precisa de ninguém para “sair de casa”. Hoje em dia faço milhares de coisas sozinha (ou só com a minha cachorra) numa boa. Viajo sozinha tranquila, mesmo para países em que não falo bem a língua. Dou a volta na Lagoa: vou a praia e piscina; passo a tarde num café lendo e escrevendo, vendo as pessoas passarem – só eu livros, caderno, uma música nos fones. Às vezes peço uma cerveja, às vezes acabo trocando papo com desconhecidos. Que viram conhecidos. Ou fico concentrada na leitura ou escrita, no prazer de fazer o que quero – sem me preocupar se tem alguém me julgando.

3-Esquece tudo o que te disseram: o seu jeito de ser é o jeito certo de ser.

oitnb2.jpgMeu caso é meio específico, mas você pode adaptar para o seu. Ler e estudar é algo que me nutre mais do que intelectual, emocionalmente. É tipo comida mesmo – sem ler ou estudar, me sinto murchando; fico infeliz, como se não estivesse crescendo. Gosto de ler muitos livros ao mesmo tempo, alguns bem grandes, e portanto fica difícil acompanhar tudo que acontece na cultura pop (que também adoro, aliás). Mas livros são prioridades para o meu bem-estar emocional. 

Além de ter finalmente encontrado pessoas com quem posso trocar ideias e aprender mais, ninguém mais me faz sentir uma outsider  porque “como assim você não viu esse filme, não acompanha essa novela, essa série?" Nunca achei que ler, escrever e gostar de estudar me fizesse superior a ninguém; mas também não aceito que me tratem como loser por preferir ficar em casa com um livro do que ir a uma festa, me vestir de acordo com a moda, ou citar de cor letras de músicas de bandas obscuras (que vão estourar daqui a dois anos).

4-Você não nasceu para agradar ninguém. Nem para impressionar ninguém.

youcantsitwithus.jpgSe o seu BFF te critica o tempo todo, faz você se sentir inconveniente, ou só sai contigo porque tem “pena de você”, pula fora. Isso não é afeto – é pura manipulação de alguém que precisa se sentir importante e o faz às custas da sua insegurança. O mundo está cheio de pessoas sensíveis que vão te apreciar sem que você tenha que fazer esforço para agradar a cheerleader e sentar com as meninas populares da escola. Convenhamos – graças a deus não estamos mais na escola ☺

5- Você descobre que tem uma grande capacidade de perdoar e amar, apesar de tudo

forgiveness.jpgSeu BFF caiu em si e pediu desculpas – e você sente que é sincero. Do nada, toda mágoa se dissolve em amor – e você descobre que o seu coração tem uma enorme capacidade de entender, perdoar, amar. Reatar laços. Começar de novo. Porque, afinal, apesar de todos os erros dele e seus (porque obviamente você também deu as suas mancadas), seu afeto é incondicional. E você deseja o melhor para a pessoa. E guarda no coração todos os momentos felizes que viveram juntos – e não pretende apagar. Faz parte da sua história, quer a pessoa tenha te descartado de vez, esfriado, dado um tempo ou esteja sempre sem tempo para você.

True love never dies. E se você sente isso, saiba que é muito especial – o mundo precisa de mais pessoas assim, como você <3


Cristina Parga

Autora de e "Qualquer areia é terra firme" (7Letras, 2015, romance), "Furta-cores" (2012, 7Letras, contos) e dos livros de não ficção "Rio ao ar livre" e "Cidadão carioca" (ambos pela ArteEnsaio, no prelo). Mestranda em Literatura, Assistente editorial, Escritora, Redatora, Revisora e Insone. Livros + flores + cachorros + amigos + verão + cerveja = alegria .
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