um país possível

nesse lugar tão frágil como o mundo

Cristina Parga

Autora de e "Qualquer areia é terra firme" (7Letras, 2015, romance), "Furta-cores" (2012, 7Letras, contos) e dos livros de não ficção "Rio ao ar livre" e "Cidadão carioca" (ambos pela ArteEnsaio, no prelo).
Mestranda em Literatura, Assistente editorial, Escritora, Redatora, Revisora e Insone.

Livros + flores + cachorros + amigos + verão + cerveja = alegria <3

Quando o amor não é conveniente

Não sei quando começaram a nos ensinar que caminhar sozinho era sinônimo de ser adulto – e que qualquer coisa diferente disso cheira a codependência ou a naftalina. Não sei quando nos ensinaram que a saída é partir para outra. Mas hoje a cartilha é clara: o amor não é suficiente, não pode vir em primeiro lugar.

amorobvious1.jpg É claro que é preciso saber estar sozinho. É essencial se bastar, antes de querer doar alguma coisa de si para o outro. Este texto não é, de maneira nenhuma, contra solteiros convictos ou quem acha que deve ficar um tempo sozinho para crescer em determinado sentido (na carreira, na saúde, para cuidar de um pai ou filho etc). É super saudável ser inteiro, ficar de pé por si só, sem muletas, nem bengalas.

A minha questão é: por que uma relação tem que ser vista como uma bengala? De onde vem tanto medo de criar vínculos? Por que uma relação ganha rótulo de "cilada" se a outra pessoa é alguém que nos questiona, que abre a nossa cabeça, nos motiva a pensar de forma diferente, e, de repente, até cogitar replanejar a vida para criar uma nova a dois? Qual o problema de arriscar – sendo que por mais que um término doa, sempre se ganha alguma coisa ( nem que seja um aprendizado novo) no final? Por que pensamos que antes de qualquer relação devem vir os nossos projetos individuais?

Lendo e vendo fotos em redes sociais, fico sempre com essa sensação de mensagem ambígua: aparentemente, todo mundo almeja ter uma relação bem-sucedida, ser parte de um power-couple, etc. Mas amor não basta: a outra metade da laranja tem que cumprir mil requisitos, se enquadrar no cenário de sonho do nosso porta-retrato – a história tem que seguir um roteiro pré-determinado, que se "encaixe" nos nossos objetivos. Alguns planejados pelos nossos pais, outros desenhados na nossa cabeça quando ainda crianças – e não é estranho que 10, 20, 30 anos depois eles não tenham mudado em nada?

O amor tem que caber direitinho no cronograma. Qualquer coisa que nos desvie da rota há muito traçada, que nos desconstrua, nos faça pensar, mudar, é perigoso – visto como nocivo, um "mau investimento".

Melhor procurar na outra prateleira do supermercado – afinal, sempre há outras pessoas, com outros planos. Que de repente até combinam com os nossos, e aí nem temos que nos desviar tanto... lend yourself obvious amor.png Sério, Montaigne? Quanto medo, heim?

Esse desprendimento é tão saudável e esclarecido que às vezes confunde: de repente, o afeto parece uma magia que pode ser reproduzida com um fantoche qualquer.

Toda essa ênfase na fidelidade aos projetos individuais faz com que estes pareçam coisas estanques – para não dizer coisas mortas, ou ainda, obsessões. O que soa mais triste ainda quando se pensa que os sonhos poderiam crescer e abarcar o outro – entretecendo, interligando e, nesse movimento, ganhando novos contornos – agregando valor, como o pessoal corporativo gosta de dizer.

Se não há espaço para essa interrelação e interseção – diferente de fusão – então que espaço há para o amor? Ou o amor por inteiro só existe quando é conveniente? Se nos meus sonhos e planos não há lugar para o outro com toda sua alteridade, onde haverá?


Cristina Parga

Autora de e "Qualquer areia é terra firme" (7Letras, 2015, romance), "Furta-cores" (2012, 7Letras, contos) e dos livros de não ficção "Rio ao ar livre" e "Cidadão carioca" (ambos pela ArteEnsaio, no prelo). Mestranda em Literatura, Assistente editorial, Escritora, Redatora, Revisora e Insone. Livros + flores + cachorros + amigos + verão + cerveja = alegria .
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