um país possível

nesse lugar tão frágil como o mundo

Cristina Parga

Autora de e "Qualquer areia é terra firme" (7Letras, 2015, romance), "Furta-cores" (2012, 7Letras, contos) e dos livros de não ficção "Rio ao ar livre" e "Cidadão carioca" (ambos pela ArteEnsaio, no prelo).
Mestranda em Literatura, Assistente editorial, Escritora, Redatora, Revisora e Insone.

Livros + flores + cachorros + amigos + verão + cerveja = alegria <3

Como apoiar alguém em depressão – sem se afogar na tristeza do outro

Se você acha que o seu amigo está em depressão e quer ajudá-lo, reúno aqui algumas dicas de quem já esteve dos dois lados da trincheira – apoiando e sendo acolhido.Talvez elas ajudem você a entender melhor o que seu amigo está vivendo; talvez elas te convençam que é possível se manter próximo.
Se você tem um amigo claramente em depressão, não aguenta mais segurar essa onda e está se afastando cada vez mais, essas dicas também são para você. Você não TEM QUE ficar ao lado de ninguém – mas entender o que seu amigo está enfrentando pode diminuir sua frustração e sensação de impotência. Afinal, não é culpa sua, nem dele/dela, – e, provavelmente, de ninguém.
Eu culpo (em parte) o mundo de relações descartáveis e a exigência de alta produtividade em que vivemos – às vezes nosso corpo/cérebro alma nos obriga a parar, nem que seja por uma doença visível ou silenciosa como a depressão.

Somos humanos, às vezes simplesmente entramos em curto-circuito; ajudar quem passa por isso não é só caridade. Pode ser também uma forma de autoconhecimento.


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“Você precisa sair dessa cama. Coloca um batom, um vestido, vai dar um passeio”, diziam. Ela ouvia tudo como se fosse um paralítico a quem dissessem para se levantar, porque “andar lhe faria bem”. É claro que faria. Se fosse possível. Mas era impraticável. Porque quando você está em depressão, parece que seu organismo não responde às ordens do cérebro. Ou o cérebro manda ordens erradas. Tudo que ela ouvia era que era melhor para todo mundo se ficasse parada na cama, no escuro, sozinha. depressao cama.jpg

Se alguém do seu convívio íntimo de repente de mostra distante, troca o dia pela noite, não tem a mesma animação para encarar programas que adorava, evita sair de casa – ou se faz tudo isso de uma forma distante, como se só estivesse cumprindo funções sociais, estando presente de corpo e ausente de espírito – ele/ela pode estar começando com um quadro de depressão. Que, como comentei num post anterior, pode ir se desenvolvemento silenciosamente até ficar num estado grave, afetando o funcionamento da vida da pessoa (e daquelas à sua volta). Por isso, se você percebeu algo diferente no seu amigo há mais de duas semanas, mesmo que não tenha acontecido nada de errado na vida externa dele – o que você sabe sobre o mundo interno dos outros? Nada, certo? – fique atento. Reuni aqui algumas dicas para que você entenda melhor e, assim, possa estar ao lado de quem está enfrentando esse demônio. Fica tranquilo. Não pega, não passa nem pela conversa, contato sexual ou abraço.

1- Depressão não é lepra. Não é encosto nem mau-olhado. Pode ir ao cinema ou à praia com seu amigo deprimido (ele vai recusar, mas você pode tentar carregá-lo), pode ir na casa dele levar comida, livros, música, coisas que ele costumava gostar, que vocês viam ou comentavam juntos – a doença não vai "pegar" em você. Nem você vai sair "carregado de más energias". Só se quiser.

2-Se seu amigo deprimido sumiu, não dê de ombros pensando que ele desistiu de você. Provavelmente ele não tem ânimo para procurar ninguém ou acha que está tão mal que nem vale a pena incomodar quem está bem. Se ele não atende os seus telefonemas, pode estar com medo de um milhão de coisas – inclusive de ser um peso na sua vida. Querer ficar sozinho para não ter que fingir estar bem não é uma rejeição pessoal a você. O isolamento e o autoabandono fazem parte da doença. Se você gosta do seu amigo, respeite o seu isolamento mas tente deixar claro que estará ao seu lado quando ele quiser/conseguir/ pedir.

3- Pode ser difícil entender, mas se coloca no lugar dele – imagina acordar todos os dias e levar horas até tomar coragem de enfrentar a dor de pisar no chão? Imagina que levantar e ir a cozinha beber água exija um esforço enorme? Agora imagina isso por meses?

4- Ok, você não tem que segurar essa barra pro seu amigo ou parente. Ninguém tem. Mas algum respeito e compreensão, mesmo à distância, a pessoa merece. Ainda mais se é parte da sua família (seja de sangue, seja do seu núcleo de amigos íntimos). Se você não aguenta o tranco e te faz mal ver alguém tendo atitudes autodestrutivas, seja claro ao pontuar isso – se preservar é importante. Mas pode ser um bálsamo para quem está deprimido saber que, mesmo não tendo estômago para acompanhá-lo nesse momento, o afeto permanece.

5- Depressão não é gripe, não é luto, não é tristeza, não passa com o tempo, só tende a piorar e tornar a pessoa ainda mais incapaz. E sim, pode ser fatal. Sinto muito dizer isso assim, com todas as letras. Mas é a mais pura verdade. Nunca é tarde para buscar ou motivar alguém a procurar ajuda.

6- Seu amigo desmaiou na festa numa crise de pânico, misturou remédios, passou mal e te fez passar vergonha, bebeu demais e falou e fez o que não devia. Você assistiu impotente, sem saber por que a pessoa está se autodestruindo – no momento, você só sabe que não quer estar perto de alguém “desgovernado” assim. Ok. Mas você já pensou que seu amigo não faz de propósito e proavelmente também não entende o que se passa? Que possivelmente a última coisa que ele quisesse fosse passar por isso, ou chamar a atenção dos outros por conta de tanta vulnerabilidade?

7-Piadinhas, raiva, brigas, desvalorização de problemas só fazem a pessoa se sentir mais incompreendida e sem valor. E convenhamos, quem está em depressão não precisa da ajuda de ninguém para se sentir pior. Se você não sabe mais o que dizer (o que é totalmente normal), que tal dar um abraço? Ajudar na faxina? Organizar os e-mails, as pastas no computador? Arrumar o armário, abastecer a geladeira da pessoa com o básico? Há milhões de coisas simples que você pode fazer para estar por perto e ajudar (sem nem tocar no delicado tema “emoções”) que mostram que você se importa.

7- Claro, é muito mais fácil deixar de se importar. Dentro da lógica capitalista em que vivemos, não vale a pena investir tempo e energia para ajudar alguém sem ganhar (aparentemente) nada em troca.

Aparentemente.


Cristina Parga

Autora de e "Qualquer areia é terra firme" (7Letras, 2015, romance), "Furta-cores" (2012, 7Letras, contos) e dos livros de não ficção "Rio ao ar livre" e "Cidadão carioca" (ambos pela ArteEnsaio, no prelo). Mestranda em Literatura, Assistente editorial, Escritora, Redatora, Revisora e Insone. Livros + flores + cachorros + amigos + verão + cerveja = alegria .
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