um país possível

nesse lugar tão frágil como o mundo

Cristina Parga

Autora de e "Qualquer areia é terra firme" (7Letras, 2015, romance), "Furta-cores" (2012, 7Letras, contos) e dos livros de não ficção "Rio ao ar livre" e "Cidadão carioca" (ambos pela ArteEnsaio, no prelo).
Mestranda em Literatura, Assistente editorial, Escritora, Redatora, Revisora e Insone.

Livros + flores + cachorros + amigos + verão + cerveja = alegria <3

Depressão II: Se minha vida é perfeita, por que me sinto assim?

Triste nem é a depressão, é o contexto em que vivemos. Em que a única forma de sobreviver sem perder emprego/amigos/respeito é participando da máquina de produção, como todo mundo. E para aguentar, tomando ”remedinhos”, como todo mundo. Ou tomando todas na sexta à noite, como todo mundo. Ou passando o final de semana em casa vendo séries jogado no sofá, sem querer pensar. Não se enganem, cerveja, livros, drogas, música, sexo, filmes – cada um de nós tem o seu escape.
Tem gente que para de funcionar. Se algum amigo seu está vivendo isso, aqui vão algumas dicas ajudá-lo de verdade – sem pegar a pessoa no colo, sem tentar resolver sua vida – e, sempre, se preservando de culpas e cargas emocionais que não são suas.


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“Chega”– uma amiga disse após um dos nossos encontros que de semanais passaram a bimensais para simples troca de likes no facebook. Era insuportável assistir alguém em queda livre. Da última vez que nos vimos, passei mal mais uma vez – mistura de fobia social, remédios e desnutrição, típica de quem não está suportando. Mas afinal, os outros também não suportavam assistir. “Não faz sentido”, diziam. “Sua vida é perfeita, você não tem motivo para se fazer de vítima. Ninguém aguenta mais você chorando pelos cantos sem motivo."

Sim, minha vida era perfeita. E tanta gente lutando, acordando às 4 da manhã para trabalhar longe, deixando os filhos sozinhos, voltando para casa sem o salário suficiente para bancar seus sonhos. Tantos animais abandonados. Tanta gente vivendo na rua. Tantas pessoas que, mesmo com doenças graves como câncer, desempregadas ou sem ter para onde ir continuavam lutando, diariamente, para sobreviver. Eu sabia de tudo isso – mas a única coisa que sentia era que o chão poderia se abrir a qualquer momento e me engolir. O que está errado não é a minha vida, sou eu – pensava. Mas o que estava errado era a depressão.

Se vivêssemos num ashram budista, talvez desse para se curar só com o apoio de amigos, meditação, terapias alternativas, fé em algo superior. Teríamos tempo para deixar a ferida ir cicatrizando por si mesma – deixar a pessoa se reencontrar, inventar algum desejo que a ajudasse a achar a própria cura. Mas o mundo gira, não vivemos num templo, e todos nós temos contas para pagar. Cada um sabe o que precisa para sobreviver por aqui.

Para quem não tem ânimo para levantar da cama, trocar de roupa, atender o telefone ou se alimentar sozinho, uma intervenção médica pode ser uma boia de salva-vidas. Porque na urbe – vamos ser sinceros – não temos esse luxo de “perder tempo”, ainda mais com quem parece não querer melhorar – até porque faz parte da doença se entregar a ela. Aí entram os remédios – para os quais muita gente torce o nariz – compreensível, visto a facilidade com que qualquer médico de qualquer especialidade passa um antidepressivo, um calmante. Mas em certos casos não dá para fugir, sob o risco de agravamento. Sim, eles têm muitos efeitos colaterais. Mas se é ruim com eles, pode ser bem pior sem eles.


Cristina Parga

Autora de e "Qualquer areia é terra firme" (7Letras, 2015, romance), "Furta-cores" (2012, 7Letras, contos) e dos livros de não ficção "Rio ao ar livre" e "Cidadão carioca" (ambos pela ArteEnsaio, no prelo). Mestranda em Literatura, Assistente editorial, Escritora, Redatora, Revisora e Insone. Livros + flores + cachorros + amigos + verão + cerveja = alegria .
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