Como as antigas chinesas, minutos a sós debaixo d’água caçando pérolas, há um ganho em se mergulhar fundo no próprio mundo interno. Há um ganho em se estar sozinho. Sozinho, digo, sem ninguém à volta — independente de ter namorados, família, ou 6 flatmates.
Escrever, sonhar acordado, o que for, sem notar se anoiteceu ou já é dia. Pensar ou tentar não pensar, sem interrupções.
E viver aquele instante mágico em que estamos imersos em nós e de repente o mundo vem. Traz-nos à tona. E nos atravessa, preenche, assombra – como pérolas, nos encanta. Como se sentir só depois desse encontro?
Semana passada, sob a hashtag #meuprimeiroassedio, fomos confrontados com histórias de vergonha, sofrimento, raiva e impotência que a naturalização da violência e opressão contra as mulheres obriga nossas meninas a passarem. Alguns relatos foram muito doloridos de ler; muitos homens ficaram surpresos/chocados que, em pleno 2015, esse tipo de agressão ainda ocorra diariamente com garotas de todas as faixas etárias, bairros e estratos sociais. Claro, para nós mulheres, não foi surpresa nenhuma. Supreendente mesmo foi perceber que é possível fazer barulho, e que juntas, nossas vozes têm muito mais força. Bom. A semana passou e não escrevi nada sobre o meu #primeiroassedio. Não por pudor, medo, vergonha, mas por uma razão simples: não me lembro. Não tenho a menor ideia de quando aconteceu o primeiro. Três, cinco. Sete? Nem faço ideia de quantos anos tinha. Tenho certeza de que muitas mulheres tiveram que arrancar lá do fundo do baú a história mais antiga de que conseguiam se lembrar. Eu não consegui lembrar do primeiro. Mas nunca esquecerei o mais traumático.
Se você acha que o seu amigo está em depressão e quer ajudá-lo, reúno aqui algumas dicas de quem já esteve dos dois lados da trincheira – apoiando e sendo acolhido.Talvez elas ajudem você a entender melhor o que seu amigo está vivendo; talvez elas te convençam que é possível se manter próximo.
Se você tem um amigo claramente em depressão, não aguenta mais segurar essa onda e está se afastando cada vez mais, essas dicas também são para você. Você não TEM QUE ficar ao lado de ninguém – mas entender o que seu amigo está enfrentando pode diminuir sua frustração e sensação de impotência. Afinal, não é culpa sua, nem dele/dela, – e, provavelmente, de ninguém.
Eu culpo (em parte) o mundo de relações descartáveis e a exigência de alta produtividade em que vivemos – às vezes nosso corpo/cérebro alma nos obriga a parar, nem que seja por uma doença visível ou silenciosa como a depressão.
Somos humanos, às vezes simplesmente entramos em curto-circuito; ajudar quem passa por isso não é só caridade. Pode ser também uma forma de autoconhecimento.
Triste nem é a depressão, é o contexto em que vivemos. Em que a única forma de sobreviver sem perder emprego/amigos/respeito é participando da máquina de produção, como todo mundo. E para aguentar, tomando ”remedinhos”, como todo mundo. Ou tomando todas na sexta à noite, como todo mundo. Ou passando o final de semana em casa vendo séries jogado no sofá, sem querer pensar. Não se enganem, cerveja, livros, drogas, música, sexo, filmes – cada um de nós tem o seu escape.
Tem gente que para de funcionar. Se algum amigo seu está vivendo isso, aqui vão algumas dicas ajudá-lo de verdade – sem pegar a pessoa no colo, sem tentar resolver sua vida – e, sempre, se preservando de culpas e cargas emocionais que não são suas.
“Com depressão, você não pensa que pôs um véu cinza e vê o mundo através da névoa do mau humor. Pensa que retiraram o véu da felicidade, e que agora você vê de verdade" – diz Andrew Solomon, em “O demônio do meio-dia”. O que ninguém fala, pois dessa doença não se fala – é o que o feio demônio pode revelar sobre nós. Ele nos recorda que somos frágeis, humanos. Nos obriga a sair da roda de hamster de produção e consumo e repensar no que realmente desejamos. E pode trazer à tona recursos internos submersos – e preciosos.
]]> Ler o artigo completoSer estrangeiro é perder restos de bagagem pelo caminho – coisas que só percebemos quando voltamos. Mas, ao mesmo tempo, é ter sempre olhos de criança que acabou de chegar – e, por isso, até uma flor descuidada crescendo sem sentido no asfalto nos prende, até as árvores e seus galhos riscando desenhos contra o horizonte nos encanta. E é aí que se entende que dividir o peito em duas, três, quatro cidades pode até doer – mas vale muito a pena. É aí que se entende que, quando se perde uma cidade, um país, um amor – está-se sempre ganhando. Memórias. História. Intensidade e profundidade no sentir.
]]> Ler o artigo completoQuem nunca sonhou em pôr a mochila nas costas e deixar para trás as ruas, travessas, casas, mirantes que tanto conhecemos – para se perder (e se reencontrar) em paisagens nunca imaginadas, ouvindo a música de línguas estrangeiras, descobrindo cheiros, sabores, olhares e costumes que nem sabíamos que existia? Quem nunca dormiu numa cama, em outra cidade a horas da própria e, ao acordar, sentiu aqueles segundos mágicos de não reconhecimento, de não ter ideia de onde se está?
]]> Ler o artigo completoA infantilidade da Frances (e a minha, talvez por isso a identificação) é só superfície. Semblante. Porque ser adulto também é deixar ir e saber que a a vida muda, e aceitar; ter coragem para não embrutecer o coração perante as perdas. É das lascas e rachas no coração que vem o que nos faz humanos singulares e não robôs ou personagens de novela. Saber, como a Frances (que apesar da saudade, continua amando profundamente Sophie), que guardar mágoa e sabotar a felicidade de quem amamos é no mínimo antihumano – que é preciso aceitar as mudanças e continuar inventando passos, correndo com esperança pelo vem por aí.
]]> Ler o artigo completoNão, este não é um texto antianálise. Sou adepta e cresci muito no divã. Comecei esse texto porque, de uns tempos pra cá, fui me deparando com um fenômeno singular: amigos/conhecidos que começaram a fazer análise e sumiram, ou que pareciam não ouvir nada que não tivesse relação com o que desejavam, que não estavam ali – imersos nos seus projetos, vitórias, realizações individuais. Como se a lógica de consumo, descarte e investimento também devesse ser aplicada às relações pessoais, em nome de um ego fortalecido contra os perigos do mundo e dos Outros. É esse o objetivo de deitar no divã – ou essa é só uma breve fase de encantamento por si próprio, pelo próprio desejo, uma cegueira temporária para as necessidades e descobertas que o Outro oferece?
Como uma boa psicanalista (que não sou, atenção) não tenho respostas para dar aqui – tenho perguntas.
Em 1981, com apenas 22 anos, Francesca Woodman suicidou-se – deixando uma obra fotográfica composta maioritariamente por autorretratos femininos, impenetráveis e, ao mesmo tempo,fantasmagoricamente irresistíveis. Como num jogo de sedução, a modelo se esconde e revela pela lente da câmera, capturando uma infinidade de mulheres que nos observam de algum espaço-tempo a que não temos acesso – que nos encaram quase no milésimo de segundo antes de se dissolverem e escaparem à nossa compreensão.
]]> Ler o artigo completoE se no que chamamos de coragem ou força está escondido um medo enorme de ser excluído, de "perder"no "jogo da vida"?
Nascido no Ceará e criado em São Paulo, viajante, nômade e cigano – como sua mitologia poética define, Leonilson surpreende pela delicadeza de suas obras, que mesclam bordados, gravuras, poemas e tecidos. Costurando memórias, afetos, imagens e anotações de viagem, Leonilson borda linhas e elementos para dar corpo aos seus afetos no tecido, numa arte tão autobiográfica que ao comover o espectador se torna universal.
]]> Ler o artigo completo