um paradigma no espelho

busco no mundo aquilo que me faz falta e me causa excesso

JESSICA CICCONE

Entre cinzas de uma cidade incansável, busco as respostas das perguntas não proferidas. Aceito propostas e acredito em promessas. Em uma viagem de pensamentos levo a mochila cheia de palavras

Eu, Tu, Nós

Como "eu" poderia tentar preencher "tu"? Mas para a alegria dos pronomes existia uma solução simples: "nós".


Escola nunca foi o meu forte, mas logo cedo fui colocada frente a frente aos queridos pronomes pessoais. Aprendi rapidamente a sua funcionalidade, mas somente depois de muito tempo, muitos textos, muitos livros, muitas dúvidas, muitos questionamentos e principalmente, muitos "eus", entendi porque aprendemos logo cedo sobre eles.

Somos completos até percebermos que não o somos. Muito embora passemos boa parte de nossa vida sem perceber esse fato, ao depararmos com os nossos pedaços pelo mundo logo começamos a observar que realmente um buraco existia. Esse preenchimento ocorre nos mais variados campos, aos poucos vamos encontrando pedaços naquele tipo de leitura que não nos agradava muito, naquele tipo de passeio que achávamos chato, naquela bebida que parecia tão amarga e agora soa como um néctar. E tudo aos poucos vai nos completando.

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Porém, o grande mistério do "eu" foi o momento que cruzou com o "tu". O "eu" sempre se bastou, não existia, e realmente não haveria de existir, buracos para serem preenchidos. Mas ao observar "tu" foi necessário abandonar todas aquelas certezas que carregara por uma vida. E aquele pensamento dominante que dizia: não sou incompleto agora soava mais como "eu" era incompleto. Apesar de uma leve consciência a respeito da nova situação, "eu" mal sabia que "tu" também era completo.

"Eu" e "tu" sempre foram completos, e esta realidade sempre estivera clara. O choque, então, foi perceberem que por serem completos não poderiam se completar. Juntamente com os pronomes, logo aprendemos algumas noções básicas de Física, dentre elas a velha lei: dois corpos não ocupam o mesmo espaço. Como "eu" poderia tentar preencher "tu"? Mas para a alegria dos pronomes existia uma solução simples: "nós".

"Nós" consegue ocupar um único lugar mesmo sendo ao mesmo tempo "eu" e "tu", "nós", sim, é o único que não permite ter buracos a serem preenchidos, "nós" é o único completo que ao mesmo tempo que é preenchido, preenche. E quando "eu" e "tu" vira "nós", não se trata de um preencher o outro, mas os dois serem um. E ainda bem que escola nunca foi o meu forte, assim não faço questão de entender essa matemática.


JESSICA CICCONE

Entre cinzas de uma cidade incansável, busco as respostas das perguntas não proferidas. Aceito propostas e acredito em promessas. Em uma viagem de pensamentos levo a mochila cheia de palavras.
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