universo alternativo

Do lado avesso da alma

Taie

Me encontro sempre que me perco. E se me perco, escrevo.

HumansApp

“É só acordar e usar, mas remova com segurança.
Característica do aplicativo: memória infinita, não há sobrecarga de dados.
Manutenção: Uma boa noite de sono.
Modelo: de todos os tamanhos, cores e cheiros.
Compatibilidade: universal, sem distinção de credo, raça ou opção sexual.
Durabilidade: até que a morte o desligue.”


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Reféns da tecnologia, todos os dias, antes mesmo de sair da cama:

Olhe o celular, verifique suas redes sociais, veja seus recados no WhatsApp, publique uma foto no Instagram, mande um SnapChat aos amigos e coloque seu Smartphone para carregar pois a bateria não costuma durar muito.

De fato, nossa geração está tomada pela constante evolução tecnológica, humanos prisioneiros de suas criações.

Há duas preocupações em nossas vidas: a senha da rede wi-fi e onde tem tomada para carregar o celular.

A distância para tudo é apenas uma tela.

A beleza está na quantidade de likes. O valor está nos bens que você possui. Seu celular deve ser o último lançamento.

Você é careta, atrasado, desatualizado se não fizer parte das novidades nos aplicativos. E eles não param.

“Viralizam” sua vida. Dominam o seu tempo. Enchem a sua timeline. Todo mundo sabe sobre todo mundo, mas ninguém se conhece.

Popularidade em follow, unfollow.

Seguidores, fãs, contatos e um comando chamado “Silenciar”. Outro “Bloquear” e um terceiro “Excluir”.

Não pratique exercícios; se fizer, registre com uma foto no espelho da academia.

Não coma; se fizer, registre com uma foto do prato.

Não tenha amigos reais; se tiver, registre com uma foto e coloque uma frase da Clarice Linspector (mesmo se você não tiver certeza que foi ela quem disse).

Não converse com as pessoas na mesa do bar. Converse com aquela pessoa que ficou em casa e diga o quanto está gelada a cerveja.

Conheça pessoas pelo Tinder, Badoo, Feeling, eHarmony, etc.

Numa festa, mantenha-se conectado, flerte pelos chats.

Não escreva bilhetes, deixe uma mensagem “inbox”.

Reclame no Twitter, no Facebook, mas não com a pessoa ou empresa responsável.

Faça check-in, mostre onde está.

Use sempre muitas hashtags.

Não escreva; dê Ctrl+c Ctrl+v.

Dê print, screenshots.

Facilidade é não pensar. É nisso que vivemos, é o nosso século.

Imagine agora, um futuro onde estaremos programados – ligar e usar. Teremos um cabo USB para nos conectarmos com as outras pessoas, passar informações, músicas e afins. E de quebra, carregamos a energia.

Não haveriam computadores, iPads, iPods, iPhones, nada.

Nós seríamos tudo isso. Seríamos todos os aplicativos, seríamos uma rede.

Uma rede de humanos; “HumansApp”.

Ligações por pensamentos. Mensagens de voz enviadas instantaneamente.

-Tenho 10% de bateria, posso carregar em você?

-Me passa aquela música que ouvimos no seu carro?

-Sim, rapidinho. Vem cá!

Acesso rápido à memória visual, olfativa, auditiva.

Um cabo USB sob a superfície da pele no nosso antebraço, próximo ao pulso. Assim como o homem-aranha. E a entrada para o cabo, na nuca.

Tudo muito discreto.

Em cores diferentes num sistema universal. Todos “leriam” a todos.

Todos seriam compatíveis.

Além da conexão, a chance de um carinho. Seria ironicamente lindo!

Talvez fosse essa a salvação para as relações humanas. Tudo é tão líquido, superficial e termina depressa como a bateria dos nossos celulares.

E se, de repente, precisássemos uns dos outros para mantermos nossas vidas atualizadas?

Seríamos as máquinas e aplicativos que inventamos. Quem sabe seríamos mais humanos, conectando-nos com outras pessoas e dividindo as informações através do contato direto.

Teríamos wi-fi, assim compartilharíamos mais. A senha seria o próprio nome.

“Qual é a senha” passaria para “qual o seu nome?”

Memória infinita, sem necessidade de cartão SD.

Não precisa formatar, não necessita backup.

Para esquecer Ctrl Alt Del.

Um modo de privacidade apenas, para evitar uma invasão de sentimentos.

Poderíamos definir quem tem acesso às nossas emoções, dores e desejos.

A cada troca de dados, uma história.

Conheceríamos mais os outros.

Mas ao remover, segurança. Para não prejudicar o processador de ideias.

(Nos importaríamos mais assim? Trataríamos melhor as pessoas?)

As redes (antis)sociais seriam diretamente sociáveis.

Trocaríamos o touchpad , pelo real sentido de sensível ao toque.

Saberíamos a hora de desligar. Sem medo, sem sentimento de culpa e com a certeza de que ao convivermos em sociedade, estaríamos conectados com as informações do mundo.

Nos sentiríamos compatíveis.

E tudo isso pode ser uma grande loucura, mas quem é bem equilibrado com toda essa dependência evolutiva/tecnológica/agressiva/invasiva e formadora de seres não humanos castrados do livre raciocínio?

Não sei, deixe-me pesquisar aqui no Google... Restam-me 7% de bateria, vai dar.

"Eu temo o dia em que a tecnologia vai ultrapassar a interatividade humana. O mundo terá uma geração de idiotas" (Albert Einsten).


Taie

Me encontro sempre que me perco. E se me perco, escrevo..
Saiba como escrever na obvious.

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