vai ver é tudo o contrário

Derrubando estantes, quebrando os vasos, rasgando as cortinas... Eu quero o meu cigarro!

Joanderson Santana

Um preguiçoso. Frequentador de botecos velhos e escondidos. Estudante de filosofia nas horas vagas.

Compaixão, você não me toma

A compaixão como dissimulação, uma mentira para se adequar ao ideal de homem dito “bom”. Você compaixão, é o medicamento para o egoísmo? Quem és tu?


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Há muitos entre nós que buscam a santidade. Existem muitas finalidades, existem tantas regras morais que buscam formar um homem dito bom, e observando tudo isso, percebi que quase esqueci de mim mesmo, eu, um ser humano, capaz de tantos atos espontâneos. Quem foi mesmo que demonizou tantos sentimentos? Quem disse que é feio possuir certos desejos, sentimentos, o que for? Inveja, orgulho, raiva, a excitação sexual, o egoísmo? Essa arma de choque chamada moral, um tiro no pé! Essa coisa que chamam de felicidade, acredito que não esteja no autoflagelo. Não sei se o leitor consegue me acompanhar. Busco ser simples. E aqui realizarei uma crítica a um instinto bem falado, divinizado, exemplo a ser seguido, esse ato que chamam de compaixão.

Tenho que apontar para a inexistência de um instinto que seja mau em si. O problema é quando erigimos palcos para alguns e jogamos outros no lodo e, isso acontece, talvez, pelo fato de a todo momento, habito terrível, tentarmos construir um modelo para a felicidade, uma construção perfeita para seguirmos nesta vida, sem sofrimento. Ao criar um modelo padrão para viver, o homem coloca-o acima de si mesmo, dando um alto valor, chegando a assumir que tal modelo possua uma origem não humana. A moral possui como finalidade o amansamento do homem e repudiar tudo aquilo que foge do ideal de rebanho, e nisso inclui a negação de si mesmo em prol do outro. Nesse sentido, a ação que foge da moral é considerada uma ação maldosa.

Para o ingênuo, a ação má surge da vontade de fazer o outro sofrer, quando também pode ser um impulso natural, ou na verdade, é sim, mais um dos inúmeros impulsos naturais que tende ao prazer próprio, vontade de domínio sobre o outro, uma vingança. Longe da moralidade, não há nada que diga que um impulso seja bom ou mau ou que o prazer seja em si mesmo bom ou mau. O indivíduo pode considerar uma ação como má por simples questão de gosto, devido, após uma análise vulgar, deduzir que ela seja capaz de causar algum desprazer acidental. Destarte, atribuir o valor de “mau” a uma ação é relativa a cada indivíduo.

E são atitudes egoístas e atitudes egoístas tendem a ser menos valorizadas, mas, como pode a compaixão ser o “remédio” para isso? Não seria ela mais um instinto egoísta? Pelo fato de não está por dentro dos pensamentos do outro, de uma ação compassiva pode surgir várias interpretações.

Porque será que ajudamos uma fraca senhora atravessar a rua? Ou, nos sentimos mal ao socarmos aquele indivíduo, quando na verdade era isso mesmo o que queríamos? É por compaixão - diriam. Na verdade, em um ato que chamamos de compaixão, podemos não pensar conscientemente em nós, porém inconscientemente pensamos. O acidente do outro nos atinge, de forma que, escolher por não ajudar, pode parecer para os demais uma representação de impotência, ou, o não ajudar pode nos gerar conflitos, uma resposta por meio da vingança. O acidente do outro pode ser um alerta de perigo eminente e que pode produzir em nós algum efeito indesejado.

Aquele que aceita a ajuda, também aceita numa forma de egoísmo, um egoísmo fraco, daquele que reconhece a sua fraqueza, pois não possui meios de se defender e, a manifestação compassiva do forte é algo importante para a permanência de sua vida ou necessário para a expansão do seu poder.

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A ética da compaixão possui como pretensão diminuir o sofrimento do fraco, todavia tende a gerar sofrimento ao compassivo. Que tipo de doutrina é essa que inspira a diminuição do sofrimento, e ao mesmo tempo permite a proliferação da miséria? O medo do perigo, da perda de sua honra frente aos outros e mesmo, o tomar o sofrimento do outro para si. Observar os acontecimentos da vida do próximo nos traz aprendizado, mas acolher o que acontece em sua vida como algo nosso... porque temos que sofrer com os nossos próprios acontecimentos e também com os do próximo?

E se observarmos o lado do fraco? Que tipo de indivíduo é esse que sente prazer em sua fraqueza? Antigamente, em tempos de homens selvagens, seria um tremer na coluna sentir pena do inimigo. Sentir compaixão era entendido como desprezar o outro. E presenciar um inimigo que não abandona a sua face de pura falta de apreço, quando o mesmo se ver sem saída para o infortúnio, era causa de prazer à alma do selvagem. Se tivesse se mostrado digno de desprezo, poderia continuar vivendo como um traste. Como escapar de um olhar de vencido, de tristeza? E como Nietzsche ver, em sua Genealogia da Moral, aforisma XIV, “os desgraçados, vencidos, os impotentes, os fracos são os que minam a vida, envenenam e destroem nossa confiança”.

O indivíduo precisa se amar em primeiro lugar, para que seja digno de tal retribuição. Alimentar a miséria, santifica-la, é algo comum na modernidade. Para amar o outro devo esquecer, do “eu”? Ainda em nossos dias é atribuído pouco, ou até mesmo, nenhum valor as ações egoístas, como se não fosse algo humano e que advém de algum ser maligno no além. Mas é próprio do ser humano. Assim que isso for assumido e for equilibrada esta balança de valores, poderá o ser humano respirar ar fresco, mostrar ações livres, sem uma consciência ruim sobre si próprio. E evocando mais uma vez Nietzsche, o próprio diz, em seu livro Aurora, no final do aforisma 148. “Quando o homem não mais se considerar mau, deixará de sê-lo”. A compaixão é somente um de vários ídolos que conservamos e que impede o ser humano de elevar-se.


Joanderson Santana

Um preguiçoso. Frequentador de botecos velhos e escondidos. Estudante de filosofia nas horas vagas..
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