vamos falar sobre isso

Tudo o que ninguém quer falar.

Estêvão Reis

para saber sobre mim pegue um ônibus, venha até a minha casa e tome um café comigo.

Ainda estou cheirando a naftalina

Passar muito tempo dentro do armário causa mau cheiro e sufocamento


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Após passar 23 anos dentro do armário, dividindo espaço com roupas velhas e bolas de naftalina, seu corpo, de alguma forma, absorve aquela atmosfera. Homossexuais são forçados a se esconderem dentro de um armário e lá permanecem. Não ousam sair, encarar a luz do dia e enfrentar os olhares, na maioria das vezes, julgadores e acusadores de familiares, amigos e até mesmo de desconhecidos.

O "sair do armário" caracteriza, popularmente, o momento em que um homossexual se assume - e se orgulha - de sua orientação sexual. Esse passo é, sem dúvida, um enorme ato político. Não há nada que um ativista possa fazer que seja maior que isso. Assumir sua identidade é se libertar de padrões estabelecidos, é abraçar a diversidade e as diferenças - as suas e as dos outros.

Dentro do armário é muito escuro. Sua invisibilidade não atinge apenas as pessoas ao seu redor; ainda pior que isso, você não se vê. Tudo é um breu. Você espirra com a poeira acumulada, coça com as traças e tateia o interior a procura de um local para se segurar. É impossível ficar confortável ali. É apertado, é medonho, é cruel.

Em surtos de coragem o máximo que um gay enrustido faz é forçar a maçaneta e deixar um pouco de luz entrar. Mas se essa coragem não for acolhida por aceitação externa, ela logo se dissipa e a escuridão volta a dominar aquele coração.

No meu caso, costumo dizer que não apenas saí daquele lugar. Eu quebrei o armário. Destruí cada parte dele, e me recuso a voltar para um outro. Não escondo mais quem eu sou. Com muito orgulho abracei quem sou e respiro um ar saudável. Um ar puro, não aquele viciado com o qual me acostumei.

Hoje, posso olhar para trás e ver o quanto suas madeiras eram grossas. Foram originadas da árvore do preconceito, cultivada dentro de cada família e levada até um marceneiro para esculpir um móvel que irá enrustir uma pessoa.

Isso acontece quando seu filho se descobre gay, ou o membro da igreja, ou o funcionário da grande corporação, ou ainda aquele amigo muito próximo.

Em minha história, o armário era todo lustrado por fora, polido diariamente por aqueles que faziam questão de me manter enclausurado. Mas, por dentro, a madeira estava gasta, cheia de ranhuras feitas com as minhas unhas enquanto tentava lidar com a depressão e os pensamentos sufocantes.

Tudo o que eles querem é que você fique lá. Escondido. Sem "causar". Você pode se arranhar, você pode sofrer, você pode se sentir claustrofóbico. Mas não saia dali. É 8 ou 80. Adapte-se ou se esconda.

Por mais de duas décadas me escondi, passando pelas atividades de educação física na escola, nas baladas com amigos, em jantares de Natal e em entrevistas de emprego. Houve uma época na qual eu até tentei me adaptar, participei de curas gays em igrejas e forcei aventuras em relacionamentos heterossexuais. Mas, como era de se esperar, sempre voltava para o maldito armário e me sentava, de pernas cruzadas, pensando em quem eu era, por que eu era daquele jeito e o que eu poderia fazer.

Contudo, um dia eu percebi que eu não precisava ficar ali. O móvel não estava trancado, eu podia sair. Abri uma porta, a luz me cegou. Esperei meus olhos se acostumarem com a luminosidade e coloquei um pé para fora. Recuei. Avancei mais uma vez. Um pé. Outro pé. Corpo fora. Liberdade.

E então abracei a minha identidade. Entendi que eu não precisava viver escondido, isolado, abandonado. Haviam pessoas que, do lado de fora, me aguardavam. E me abraçaram. Me beijaram. Me amaram do jeito que eu era.

Mas, ainda assim, o cheiro continuava. O que era aquele odor?

A naftalina.

O cheiro de guardado. O odor de insetos mortos. O cheiro de roupa velha.

É o preconceito estrutural sob o qual fui configurado. Preconceito comigo mesmo e com os outros. Velhos hábitos e velhas maneiras de pensar. Antigos julgamentos que ainda assombravam a minha mente.

Tudo é muito recente. Não sai do armário sabendo quem é RuPaul ou conhecendo a biografia da Madonna. O primeiro beijo, a primeira demonstração pública de carinho, cada dia uma nova experiência. É um mundo novo que eu estou adorando conhecer. Um mundo de possibilidades. Mas ainda não tem nem um ano que o armário foi quebrado e o cheiro da naftalina ainda continua enraizado em minha pele.

E não se engane, vez ou outra o cheiro de naftalina fica forte e me lembro de onde sai. É tentador construir um novo.

Por isso, preciso remover o cheiro - que já está bem mais suave do que logo nas primeiras semanas - tomando diariamente banhos de amor, carinho, aceitação, compreensão, amizade, companheirismo e autoconhecimento.

Em alguns lugares eu não consigo limpar, e uma mão amiga me ajuda na remoção. Já em outras, cabe a mim - e somente a mim.

Mas fato é que eu estou vivendo hoje algo que nunca imaginei viver. Posso respirar, posso ver, posso sentir e me permitir ser sentido.

Para o armário, nunca mais. Quanto ao mal cheiro, me desculpe, ainda estou em um processo. Lento? Sim. Mas para quem viveu 23 anos em um casulo aprender a voar é bem complicado.

Mas é natural.

E eu nunca antes me senti assim.


Estêvão Reis

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