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Estêvão Reis

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Minha dívida com a literatura

Após muitos anos carregando a culpa por não ter lido O Pequeno Príncipe, embarquei em uma jornada ao lado de Antoine de Saint-Exupéry.


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Aos 23 anos, li pela primeira vez O Pequeno Príncipe.

Era uma sensação estranha ir a lojas de decoração e encontrar diversos itens envolvendo esse tema, ou ler diversas frases de Antoine de Saint-Exupéry espalhadas pelo Facebook sem entender o seu real contexto.

Creio que todo mundo tenha pelo menos ideia do que se trata o clássico. Já deve ter visto uma gravura do pequeno menino loiro e seu cachecol amarelo ou até mesmo ter se inspirado com “O essencial é invísivel aos olhos”. Mas para mim faltava algo, era necessário uma imersão nesse universo para que tudo aquilo fizesse sentido.

Quando criança, na época em que normalmente lê-se a história do principezinho, estava ocupado com outras coisas e não me interessava por livros. Foi preciso 18 anos se passarem e mudar para uma outra cidade – longe de amigos e familiares – para que um novo hobby surgisse: a literatura.

Ela preencheu meus dias, fez-me companhia enquanto me habituava a um novo estilo de vida e, entre uma aula e outra, ele sempre estava lá, meu bom companheiro livro. Li clássicos, trilogias, livros que foram adaptados para as telonas, obras técnicas, romances e ficções apocalípticas. Mas sempre que ia adquirir um novo companheiro, seja em livrarias ou lojas virtuais, lá estava ele: o pequeno menino loiro montado em um planeta ao lado de uma rosa.

Até que eu decidi encerrar esse drama. Iria, de uma vez por todas, por fim a minha dívida com a literatura.

Comprei o pequeno príncipe e me assustei com a espessura do livro: 96 páginas, letra grande e com ilustrações do autor. E então tive um choque de realidade: esse é um livro para crianças, o que mais poderia esperar?

Foram dois dias de imersão na vida de um jovem ser extraterrestre que viaja pelos planetas, conhece pessoas e cultiva um grande amor com uma rosa. Precisei abandonar todos os meus paradigmas de literatura, tive que me abster das descrições de Tolkien ou da dramatização de Martin e ler cada linha com a alma de uma criança que descobre um mundo pela primeira vez.

A história atemporal e que jamais envelhece, conseguiu inserir em minha mente o quanto adultos são complicados e que a vida juvenil é muito mais simples, basta uma pitada de imaginação e criatividade. Não há espaço a se perder em planetas dominados pela autopromoção, pela glutonaria como fuga das vergonhas ou quinhentos milhões de estrelas a se administrar. Basta um planeta, com uma flor frágil e ingênua, sem espinhos para se defender, e a vida pode ser feliz.

Não cairei na falsa ideia de, a partir de agora, dizer que O Pequeno Príncipe é o meu livro favorito – até por que não sou uma miss – mas, sem dúvidas, irei outras vezes separar em minha rotina de leitura outros momentos para desfrutar o universo de Saint-Exupéry. Não postarei “Tu te tornas eternamente responsável por quem tu cativas” em uma selfie no Instagram vulgarizando as idealizações do autor, mas irei refletir nos sentimentos que foram tão sabiamente articulados em poucas páginas.

E hoje, por fim, sei que não se trata de um chapéu.


Estêvão Reis

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