vamos falar sobre isso

Tudo o que ninguém quer falar.

Estêvão Reis

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Setembro amarelo: não deixe a morte vencer

Vamos falar sobre suicídio?


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Há um lugar escuro, mas tão escuro, que não apenas é impossível encontrar a saída. Ela parece não existir. A desesperança e o sentimento de que não vale a pena abrir os olhos mais uma vez, que respirar é um fardo, que nada dará certo, precede ao pensamento de morte, ao desejo de acabar com a própria vida.

Segundo a Organização Mundial de Saúde, a cada 45 minutos, um(a) [email protected] se suicida. Desse número alarmante, mais um dado: em 90% dos casos poderia haver uma prevenção. O suicídio, na mente de quem o comete, é o desfecho final. É a tentativa de colocar um fim à dor que angustia, que amargura, que fera a alma e consome as energias. Para os conhecidos da vítima, muitas vezes fica a dúvida no ar, o que poderia ter sido feito para conter a situação?

Chega de tabu. Vamos falar sobre suicídio?

Se os dados no Brasil chocam, os dados a nível global assustam mais ainda: a cada 45 segundos uma pessoa se mata. Assim como existe o Outubro Rosa e o Novembro Azul (conscientizando a prevenção do câncer de mama e sobre as doenças masculinas, respectivamente) o Setembro Amarelo foi criado para trazer à tona um assunto pouco discutido.

Apesar dos dados alarmantes, os casos de suicídio ainda possuem pouca visibilidade em nossa sociedade.

Houve um tempo em minha vida em que não havia mais motivos para viver. Nada fazia sentido. Eu me sentia errado, desajustado, incomodado com a ideia de que o sono não era eterno e que, após algumas horas, teria de enfrentar a mim mesmo, meus parentes, meus amigos e desconhecidos.

Foram três tentativas. Na primeira, sentado da janela do oitavo andar, olhei para os carros que passavam na avenida e pensei: o que há além da vida? O que acontecerá quando não o meu ser não mais existir? Não tive coragem. Saí dali e consegui sobreviver mais alguns dias. Na segunda foi o gás. Abri o botijão, abri a tampa do forno deixando o gás escapar e, após apagar a luz, me deitei. O que me salvou? O meu cachorro, que latiu tantas vezes por ter sido o primeiro afetado (o gás se concentra na área mais baixa) e me incomodou. Levantei, abri a janela, e ao invés de permitir que minha vida escapasse pelas mãos, deixei o gás ir embora.

Pela terceira – e última – vez foram os comprimidos. Uma caixa de relaxante muscular misturado com sonífero. Na ocasião eu nem sabia se aquilo traria algum resultado fatal, mas o desespero era tão grande que ingeri todas as capsulas que tinha em casa. Não morri por intervenção de um amigo que me tirou de casa e me acolheu.

Em todas essas tentativas havia um traço em comum: eu queria conversar.

Eu queria ser ouvido, ser aceito e encontrar meu lugar no mundo. E não tinha coragem de fazer isso.

As minhas tentativas de suicídio foram gritos desesperados de uma alma que ansiava por ajuda. O meu desejo não era a morte em si*, mas o fim do sofrimento. Era a tentativa de encontrar uma solução.

Sempre que pular na frente de um carro parecer mais interessante que encarar a vida, por favor, me ouça, pense mais uma vez.

Olhe por outra perspectiva, tente, ainda que esteja muito difícil, encontrar um caminho diferente.

Se eu soubesse hoje o que o futuro me aguardava eu teria buscado ajuda muito mais cedo. Foram incontáveis conversas com amigos e, anos depois, sessões de terapia para que o foco fosse reajustado.

Na mente de um suicida não há futuro. É nosso papel mostrar o que a vida ainda pode oferecer.

Em seu caminho para o desfecho fatal o suicida larga pequenos indícios, migalhas que indicam as causas. Mesmo que a pessoa não expresse de maneira clara suas intenções, é possível detectar algumas mudanças de comportamento. Buscar ajuda por contra própria pode ser muito difícil; é mais fácil tentar chamar a atenção.

Depressão, desordens relacionadas ao uso de substâncias, esquizofrenia, transtornos de personalidade são apenas alguns dos indícios. É de extrema importância acompanhar eventuais mudanças de comportamento que levem o indivíduo ao isolamento social, desinteresse em atividades que antes davam prazer, angústia, aflição, baixo rendimento na escola ou no trabalho.

Precisamos dar atenção a esses sinais!

Precisamos valorizar e respeitar a dor de outra pessoa. Não podemos julgar o sentimento alheio.

Não permita que os números aumentem. Engaje-se oferecendo seu ombro, seu ouvido, suas mãos em contribuir com ações efetivas em favor da vida.

Demonstre interesse, ofereça ajuda. Não por vanglória pessoal, mas porque a morte nunca será a solução. Seu objetivo não é forçar que a pessoa fale com você e nem deve ser de dar críticas ou julgamentos. Ela precisa entender que você se preocupa com ela, que você a ama de uma maneira real. Que a vida dela é importante, que sua morte será sentida com pesar e muita tristeza. O ideal, em muito casos, é se oferecer a encontrar uma ajuda profissional. Você não tem as respostas finais para a crise de outra pessoa, mas pode ser um intermediador.

Não permita que a situação chegue ao ponto extremo.

Se você se sente triste e só consegue pensar no suicídio como uma opção para acabar com o sofrimento procure ajuda. Ela pode ser profissional, como um médico e/ou psicólogo, um amigo, um familiar. Há serviços como o CVV (Centro de Valorização da Vida) que atendem 24 horas na internet ou pelo telefone 141.

Não acabe com a sua vida. Não vale a pena. Eu estive no seu lugar e sei o que você está passando.

A morte não é a melhor saída. Sempre há um outro caminho para seguir em frente.

* Não generalizo aqui. Essa foi a minha experiência. Eu queria conversar mas tinha vergonha de iniciar o assunto. Na terceira tentativa, por exemplo, escrevi uma carta de 4 páginas contando o que eu estava passando. Mas é importante entender que cada pessoa é impulsionada de uma maneira e se insensível à dor de outrem não agrega em nada na discussão.


Estêvão Reis

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