vamos falar sobre isso

Tudo o que ninguém quer falar.

Estêvão Reis

para saber sobre mim pegue um ônibus, venha até a minha casa e tome um café comigo.

Pare com a sua homofobia disfarçada de cristianismo

E não distorça versículos para justificar seu preconceito


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De um lado: santa indignação de Ana Paula Valadão, aprovação do “dia de combate à cristofobia”, marcha pela família tradicional, governo golpista, retrocessos e bancada evangélica.

Do outro: 50 homossexuais mortos em uma balada de Orlando, 318 vítimas de homofobia apenas em 2015, 1 vítima de homofobia (assassinatos e suicídios) a cada 28 horas no país

Sou gay. Filho de pastor presbiteriano, cresci em um lar evangélico, desde pequeno ouvindo sobre Jonas e a baleia, a virgem que pariu e os quatro cavaleiros que destruiriam o mundo. Sei cantarolar uma música que me ensinou a decorar os livros da Bíblia, a qual já li três vezes integralmente. Sei o que é Escola Dominical, células, ceia e mais um monte de coisas que você deve fazer para não ser mais um desviado.

Apesar de todo esse ambiente cristão eu nasci gay, descobri que sou um homem que se apaixona por homens. E meu primeiro contato com a homofobia foi dentro dos cultos. A saber, aquelas reuniões que falamos do amor de um suposto Cristo.

Homofobia aqui, leia-se como interpretação da homossexualidade como uma perversão, algo a ser curado e combatido, pauta de piadas e conversinhas de corredor. O processo de aceitação foi lento, foram 23 anos, mas, enfim, acabou.

Hoje, bem resolvido com minha sexualidade, me considero alguém espiritualizado, com inclinações ao cristianismo, ainda que não frequente nenhuma igreja. Apenas acredito que há algo maior que o mundo físico, e que Jesus foi um cara bacana, de esquerda, que hoje venderia miçanga na Avenida Paulista e gritaria #ForaTemer.

Eu sei o que a Bíblia fala, e eu sei também o que ela não fala.

Na ânsia de justificar seus preconceitos e, mais específicamente, sua homofobia, os cristãos 2.0 distorcem versículos, procuram traduções que endossem seus pensamentos, polarizam a política, elegem defensores de uma família tradicional que não existe e ensinam aos seus filhos a intolerância e o ódio.

Sim, o ódio.

Pelos discursos de intolerância proferidos nos cultos, milhares de jovens se mantêm presos em armários que não foram construídos pelo marceneiro que tanto acreditam. Foram construídos por eles, lustrados com seus egos e bancados com seus dízimos.

O sangue das 318 vítimas de homofobia em 2015 no Brasil está em suas mãos. Está na mão da família tradicional brasileira, na mão da bancada evangélica, na mão de governos golpisas e ilegítimos.

São 318 filhxs, esposxs, namoradxs, parentes, amadxs, queridxs. São 318 vidas, por ano.

E na ânsia de provarem seus valores repetem que "amam o pecador, mas odeiam o pecado", que "Deus te ama como você é, mas não te deixa como está".

Isso é homofobia, não é cristianismo prezando pelos valores de Deus, é preconceito disfarçado de religião. Passado de uma geração para a outra, a intolerância continua. Eles jamais irão assumir isso, mas sustentam os assassinatos, os suicídios, os abandonos. Sujaram suas mãos assim como os fariseus.

LGBT nascem. Vivem. Amam. São amados. São o tesouro de alguém. Merecem viver como desejam viver, sem interrupções, sem acusações.

Se você é cristão e defende leis anti-LGBT você é homofóbico. Ponto. Não há discussão. Não são privilégios, não é frescura, muito menos mimimi. É proteção à vida, é direito à vida. Não importa seus argumentos baseados nos ensinamentos de Paulo, você discrimina, separa, segrega. Você nega direitos cobrando deveres.

Apenas parem de orar por nós. Não precisamos de suas intercessões.

Apenas parem com seus seminários de cura e libertação, parem com seus falsos ex-gays, parem com o marketing de batalha espiritual.

Apenas parem de "amar o pecador mas odiar o pecado”. Apenas parem de misturar política e religião. Parem com suas santas indignações e seus boicotes.

Não precisamos do amor de vocês, temos de sobra. Só precisamos que vocês parem com suas intervenções e com seus discursos de ódio.

Apenas parem.


Estêvão Reis

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