vamos falar sobre isso

Tudo o que ninguém quer falar.

Estêvão Reis

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A realidade (e farsa) da “cura gay”

Um relato sobre a crueldade das terapias de “(re)orientação sexual” e um recado para a comunidade LGBT


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Identidade. Quem somos, o que somos, quais desejos temos. Estamos em constante busca de respostas que formam nosso “eu”, que compõem o todo complexo da vivência de ser humano. Não é fácil se descobrir homossexual. Crescer sentindo que seus desejos são errados e convencido de que algo do lado de dentro está desajustado é uma das piores coisas que pode acontecer.

Essa semana quando saiu a notícia sobre a liminar emitida por um juiz que, na prática, torna legalmente possível que psicólogos ofereçam psicoterapia de reversão sexual, uma onda de indignação tomou conta da internet sobre a suposta “cura”. Para muitas pessoas a expressão “cura gay” pode parecer cômica e bizarra, um retrocesso sem tamanho, mas o que mais me assustou foi a quantidade de pessoas que, de fato, desconhecem que esse tipo de “terapia” existe e acontece com pessoas muito mais próximas do que imaginamos.

Antes de mais nada: sou assumidamente gay. Não tenho mais problemas com minha orientação sexual, tampouco com a minha história. Não existiam caminhos alternativos anos atrás quando procurei uma “restauração” para um “problema” que habitava em mim. Estar exposto continuamente a um determinado padrão fez com que eu condicionasse minha vida a me encaixar em um modelo do que é “ser homem” que eu jamais poderia efetivamente cumprir.

Passei a minha adolescência chorando ajoelhado em meu quarto e pedindo a Deus que me consertasse, que me fizesse novamente sem esse grande problema que eu enfrentava. Me isolei do mundo quando criança para esconder o meu segredo, amedrontado de que a qualquer momento as pessoas pudessem ler meus pensamentos e descobrir quais desejos habitavam minha mente e latejavam em meu corpo. Me tornei uma pessoa triste, sem autoestima, do tipo que não fala para não decepcionar e não se posiciona por medo de retaliação. Foi apenas próximo dos vinte anos que pela primeira vez meus lábios conseguiram falar “sou gay”, após uma longa crise depressiva que me levou a três tentativas de suicídio. Vendo a reação da minha mãe com essa notícia, que chorou por mais de uma hora sem parar na minha frente implorando que eu procurasse ajuda a situação piorou.

Nunca passou pela minha cabeça me assumir. Não havia a menor possibilidade de abraçar minha identidade e viver uma vida plena, fora do armário. Ser gay sempre foi sinônimo de pecado, de perdição, de desvio de conduta, de uma escolha errada a se fazer quando meus impulsos sexuais viessem à tona. Não houve uma pessoa que tivesse falado pra mim na época da minha descoberta sexual coisas como “está tudo bem com você” ou “você é amado do jeito que você é”. Imerso em um cenário confuso tanto fora quanto dentro de mim, me restou procurar ajuda, tentar mudar o que eu jamais poderia ter escolhido, o meu “espinho da carne”.

É importante deixar claro que não fui obrigado a passar pelo processo de cura gay. Foi uma escolha feita - péssima, sim - mas na época não existiam outros caminhos. Deus poderia me salvar, ele poderia me ajudar, certo?

Ao todo foram três anos e duas igrejas diferentes. As duas igrejas, em São Paulo, são conhecidas por serem modernas, de vertente pentecostal, e o marketing espiritual era perfeito conseguindo se vender como descoladas para atrair o público jovem. Seus cultos são espetáculos, com show de luzes, danças, diversos ministérios. Lá, dizem abraçar e aceitar todos os tipos de pessoas, repetindo o mantras como “Deus ama o pecador, mas odeia o pecado” e “Deus me ama como sou, mas não me deixa como estou”.

Não existe o termo “cura gay” quando você realmente faz o processo. O termo genérico seria “libertação e cura interior”. A premissa é que todas as pessoas possuem questões internas que precisam ser mudadas e curadas para se adequarem à vontade de Deus. As sessões variam de acordo com o “ministrador”. Alguns são de fato terapeutas, outros são pastores ou apenas ocupam cargos de liderança dentro da Igreja. No meu caso todos eles eram homens, uma “figura masculina a se espelhar”, e seguiam um cronograma onde eu falava sobre o meu “pecado”, conversávamos e tentávamos encontrar uma raiz para esse “problema”.

Sempre foi assim: eu me sentava na frente de uma pessoa, com duas outras presentes na sala intercedendo pelo momento e pedindo a Deus orientação de cura. Foram três anos, que envolveram outros processos como o uso de “óleo da unção” em minha fronte diariamente para “impedir que pensamentos homossexuais viessem”, orientações de como mudar a minha postura e tentativas de mudar meu tom de voz para ser menos afeminado. Recebi uma lista sobre quais tipos de músicas ouvir, joguei fora todos os meus CDs, tirei meus alargadores por serem “portas para Satanás” e ouvi que a culpa era dos meus pais por ter tido uma criação errada - o que fez com que a conexão que eu tinha com minha família fosse abalada ao ponto de não conversarmos por meses.

Me entreguei com intensidade ao processo. Li a Bíblia toda por quatro vezes consecutivas, não podia sair sem ela. Namorei uma menina e tive que apresentá-la para minha família. Sempre que os pensamentos “impuros” viessem tinha que ligar para o meu líder que, pelo telefone, faria aquilo passar. Comprei dezenas de livros que diziam ter testemunhos sobre pessoas que conseguiram se curar da homossexualidade, conversei pessoalmente com alguns e procurava ajuda de como impedir que a atração homoafetiva continuasse.

Mas nada, absolutamente nada, deu certo. A única coisa que aconteceu comigo durante esses três anos foi me tornar uma pessoa triste, usando uma máscara que não me pertencia e que fazia com que eu fosse um outro alguém. Me tornei ainda mais fechado, ainda mais tímido, ouvia termos como “viadinho” sendo direcionados a outras pessoas e precisava ficar calado, sem me posicionar.

Sugaram a minha energia. Me mataram por dentro. Minha identidade foi apagada.

Em nome de Deus.

O primeiro sentimento que fez com que eu abrisse meus olhos foi a frustração. Por mais eu tentasse ou me dedicasse ao processo nada parecia adiantar. Não importava meus esforços, os pensamentos e desejo permaneciam ali. Eram apenas jogados de canto e fingíamos que a cura um dia viria. Na mesma época conheci um livro chamado Torn, de Justin Lee, que apresentava uma visão alternativa à questão cristianismo x homossexualidade. Aquela foi a primeira vez que tive contato com alguém dizendo que era possível ser gay e ser cristão. O autor dava seu testemunho de tentar uma cura por anos e nada funcionar, até que um dia percebeu que estava direcionando sua energia no lugar errado. Me identifiquei e senti que algo começaria a mudar.

Comecei a me questionar e procurei entender minhas motivações em procurar a desejada “(re)orientação sexual”. Minha cabeça continuava confusa e tentava encontrar agora não mais a cura, mas sim os meus próprios “porquês”.

Parei o processo, ouvi que deveria “me adequar” e não deixar esses pensamentos me dominarem, caso contrário a Igreja não seria mais um lugar para mim. E de fato não foi. Parei de frequentar aquele ambiente tóxico, me tornei um párea para os que lá ficaram e exemplo de alguém que desistiu de Deus.

Encontrei uma terapeuta desassociada àquelas pessoas que me ajudou a compreender e limpar toda a bagunça que foi feita na minha vida. Foram quase seis meses de conversa para organizar minha mente e ficar confortável com minha própria existência. Encontrei pela primeira vez paz ao olhar para dentro e me deparar com meus desejos e sentimentos.

Pessoas me deletaram das redes sociais, eu deletei outras. Zerei todos os meus amigos, comecei novamente a minha vida.

Me tornei pela segunda vez um adolescente, vivenciando o mundo sem máscaras, respirando o ar puro e sem culpa fora do armário. Tive as minhas primeiras experiências: o primeiro encontro, o primeiro beijo, a primeira transa, a primeira paixão, a primeira decepção amorosa, os primeiros amigos, o primeiro “eu te amo”, o primeiro namorado.

Passei a viver como eu era, como tinha nascido.

Demorei para entender que não havia nada de errado comigo. Não sou doente. Não sou um pecador. Não sou uma pessoa ruim pela minha orientação sexual. Não sou uma aberração ou um desvio da natureza.

Eu sou normal. Sou uma boa pessoa, que quer amar e ser amado. Que vive hoje todas as oportunidades da vida sem culpa, se permitindo aventuras que antes eram impensáveis.

Atualmente tenho marcas profundas do processo. Poderia ter aproveitado essa liberdade muito tempo antes. Teria evitado todo o desgaste emocional desnecessário se ao menos alguém tivesse me alertado ou me apresentado uma alternativa para lidar com a minha sexualidade.

Porém, toda experiência, por pior que seja, trás consigo aprendizados. E após esses anos eu aprendi a valorizar a verdade. Tenho muito mais convicção de quem eu sou, justamente por ter tentado viver uma versão que jamais poderia chamar de minha. Já nao aceito mais máscaras ou duplas personalidades. Ao meu lado apenas quem me aceita e me faz evoluir, não me entrego ao retrocesso nunca mais, muito menos ao questionamento de que minha essência é imperfeita. Repetir por muito tempo uma mentira pode causar uma ideia de que ela se torna uma verdade, mas isso não acontece. A mentira e a verdade jamais poderão habitar o mesmo ambiente e cabe a nós escolhermos um lado e jamais aceitar a enganação que fazemos a nós mesmos.

Se você é LGBT, me ouça com atenção: você não precisa mudar nada. Você é perfeito assim. Errada é a homofobia que ainda vivenciamos e sofremos. Dela estamos juntos, na linha de frente, tentando vencer. Não se entregue para falsas promessas de cura, ela não existe, eu tentei mudar.

E que bom que eu não mudei, afinal, quem eu sou é o que eu tenho de melhor para oferecer.


Estêvão Reis

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