Lucas Thedim

Antes de dormir

Um pequeno devaneio sobre a vida e como nós encaramos as nossas pequenas desventuras que carinhosamente apelidamos de fracassos.


Existem algumas coisas que nos botam para pensar um pouco na vida, certos momentos, certos acertos e alguns muitos erros tem esse poder. Outra coisa que parece ter uma habilidade incrível é uma boa noite de domingo, mas por que logo noites de domingo? Com tantas coisas para pensar, com o trabalho cedo amanhã, tanta gente, tanta vida. Por qual motivo masoquista nossa mente nos faz cair logo nas noites de domingo nesses devaneios?

Gosto de pensar que a vida é feita de perguntas, e que temos que passar nossa vida pensando muito mais em como fazer a pergunta certa do que propriamente tentar resolver as perguntas erradas. Hoje mais cedo estava com uns amigos curtindo meu ultimo dia de final de semana bebendo uma cerveja e tomando um sol, até ai nada demais sobre isso. No entanto, foi quando eu percebi que todos nós estávamos ali em uma cena que eu sempre via os “adultos”, naquele exato instante foi quando eu parei para prestar atenção no que realmente estávamos falando a respeito das nossas vidas, dos nossos sonhos, das nossas frustrações e estresses diários. E isso me pegou de surpresa, não mais que de repente, minha vida passou por meus olhos. Sabe aquela sensação de que somente naquele instante realmente acordarmos do nosso cotidiano e vemos a vida como ela está?

Se me falassem a 2 anos atrás que eu estaria naquela mesa hoje, conversando sobre trabalho, tendo uma vida “prudente e responsável” eu provavelmente diria que é possível porém pouco provável. Se me contassem a exata mesma cena a 6 anos atrás eu provavelmente diria, sem chances. Ou seja, essa cena, que apesar de ser tão simbólica e importante, nunca fez parte dos meus planos e se eu analisar, ela é inclusive deve ser resultado dos erros e não dos acertos. Mas qual é a graça de tudo isso?

A graça é que eu hoje percebi que completei um pedaço da vida que eu nunca sonhei em completar. E são nesses pequenos acontecimentos que a gente vê que muitas vezes nós somos arrastados pela vida sem poder fazer nada para evitar. Muitas vezes inclusive, nós nem percebemos que não estamos no comando do nosso cotidiano. O que é extremamente agoniante. Será mesmo? Bem, existe meio mundo de frases bonitas que eu poderia falar aqui para descrever o que eu pretendo, mas vou deixar essa “Todos nós fomos criados vendo televisão para acreditar que um dia seríamos milionários, e deuses do cinema, estrelas do rock. Mas nós não somos. Aos poucos vamos tomando consciência disso. E estamos muito, muito revoltados”. Essa frase, do filme o clube da luta, sempre se comunicou comigo de uma forma muito profunda, mas eu nunca entendi o porque ela ressoava tão profundo em mim realmente.

Confesso que sempre achei que fosse recalque por eu nunca realmente poder ter a vida de estrela de cinema, tendo aventuras incríveis, ou sei lá. Mas eu hoje, depois dessa experiência percebi algo muito mais intrigante. Essa frase sempre me incomoda, pois eu sou o único ator do meu próprio longa metragem. Soou arrogante né? Deixe-me explicar melhor isso – é uma falha que todos temos e é uma bela falha, diga-se de passagem – não existe momento nenhum das nossas vidas em que nós não estejamos presentes e por isso a pessoa mais importante das nossas vidas somos nós mesmos. Claro que nós raramente pensamos nisso porque é socialmente repulsivo, mas a verdade é que todos somos assim, pense um pouco, o mundo que você vive está a SUA volta, tudo que você vê no computador, na televisão se comunica diretamente com VOCÊ.

Não, eu não vou entrar no velho sermão sobre ser menos individualista, ou sobre outras cem dúzias de virtudes morais ou mesmo sobre respeitar os outros e viver de forma simples. Sabe por quê? Porque isso não é uma questão de mera virtude, isso não é algo maior que nós. Ver o mundo ou não dessa maneira é somente questão de treinar sair um pouco do centro das coisas, é somente o resultado de refletir um pouco sobre a vida e tentar parar de entender a vida a partir do nosso único ponto de vista.

Mas onde isso se comunica com tudo que eu falei até aqui? Bem, provavelmente, na nossa vida teremos a seguinte rotina, vamos acordar cedo e ir para os nossos trabalhos, que desejamos muito ter entrado, para sentar lá e trabalhar durante umas dez a doze horas e no final do dia, já cansados e estressados com nossos tão sonhados empregos, nós vamos querer ir para casa relaxar, comer alguma coisa, tomar um vinho ou uma cerveja e – é claro – dormir cedo para no dia seguinte enfrentarmos a mesma rotina desafiadora de sempre. Só que no caminho de casa nos lembramos que não temos comida em casa, pois nossos trabalhos desafiadores e sonhados não nos deixam tempo para ir ao supermercado com frequência, então agora, após um dia longo de trabalho nós temos que ir até o supermercado.

Como está no fim do dia de trabalho o tráfico está, digamos: um lixo. Então ir até o querido supermercado demora muito mais que deveria, e claro que quando chegamos lá nos deparamos com o inferno na terra, pois assim como nós, todas as outras pessoas com empregos estão na mesma situação. E depois de longos minutos sofrendo sendo obrigado a ouvir as musicas horríveis que tocam nesses lugares que sugam sua alma, chegamos finalmente na fila para pagar o nosso já não tão desejado jantar, comprado com o nosso já não tão amado trabalho e ouvir um “tenha uma boa noite” que soa como a voz da morte para os nossos ouvidos, e depois temos que entrar no nosso carro, já não tão mais confortável, enfrentarmos o transito, e bem, você já pegou o jeito de como vai ser...

O troço perspicaz desse nosso erro de fabricação é que por acharmos que somos o centro do universo nunca questionamos como os outros agem, pois a gente sempre observa tudo a partir de nós. Se eu passo a vida a partir dessa minha mentalidade natural das coisas eu sempre vou ter problemas que sejam naturalmente ligados a mim, quando eu tiver que ir fazer compras eu vou estar naturalmente estressado por ter que pegar rios de filas sem razão, enfrentar um transito onde só existem débeis mentais ao volante, e ter que ter pequenas interações com pessoas que serão tão vazias quanto a minha insuportável rotina. E pior, sempre terá algum tipo de problema no caminho dos meus sonhos. Frustrante não?

Agora, se eu escolho sair dessa ótica de vida, se eu realmente penso no que estou fazendo e por que eu estou fazendo as coisas. Na realidade, mais que isso, se eu paro para perceber o porque as pessoas estão fazendo o que elas estão fazendo, mas não tentando analisar com conceitos abstratos e teorias sociológicas malucas. Se eu somente usar minha observação pura e minha sensibilidade, eu vou ter uma visão da vida completamente diferente. Aquele ser humano desprezível que eu xinguei até a ultima geração por ter me dado uma fechada no transito pode estar com problemas e eu que na verdade estava nos eu caminho dele. Aquele garçom antipático que não me atendeu da forma que deveria, na verdade fez isso pois estava cansado da rotina tripla para pagar a escola do seu filho.

A única coisa que podemos fazer para não sofrer com todos esses inconvenientes, que são super comuns, é pararmos de ser o centro da nossa própria vida, não estou falando para nos anularmos frente aos outros, mas sim de começar a considerar que os outros são tão reais quanto nós, que as coisas na nossa vida não acontecem para nós ou por causa de nós, muito menos contra nós. As coisas simplesmente acontecem, pois a vida é assim. Os pássaros cantam, o mundo gira e nós temos que viver nossas vidas de mentira com nossos sonhos enjaulados, mas isso não precisa ser necessariamente ruim.

Estava falando mais acima sobre esse meu acontecimento banal de ir tomar uma cerveja e reclamar da vida. vejam, com isso eu poderia ler toda a experiência que eu tive de perceber meu envelhecimento de uma forma completamente negativa, poderia ter ficado preocupado com meus sonhos que nunca se realizarão ou poderia ter até mesmo me sentido completamente feliz e no topo do mundo, pois eu tenho um trabalho que pode me estressar e eu posso nos finais de semana reclamar dos problemas gastando o dinheiro que ele me dá. O único problema de eu fazer isso é que eu não vou estar saindo do meu pensamento padrão, vou sempre pensar o mundo como se eu fosse o centro dele. Mas se eu quiser enxergar por esse ponto de vista, e muitas vezes somente da para ver dessa forma unitária a vida, não há nada de errado em fazer isso, porque não existe receita para se viver.

Se ter certezas demais faz mal, ter duvidas em excesso também não é bom, ficar a vida toda se questionando se realmente estamos felizes não deixa ninguém mais feliz, pois nunca vamos ser tão felizes, famosos, ricos e bem sucedidos quanto nós achamos que deveríamos ou gostaríamos de ser. Mais que isso, a vida é feita de desejos sobre coisas que amamos e quanto mais se deseja e almeja algo, mais infelizes ficamos, pois adorar coisas com o tempo começa a nos consumir por dentro.

Se você almeja dinheiro, por exemplo, você terminará sempre se sentindo pobre e querendo ter coisas que não pode pagar. Se você adora o poder, irá sempre se sentir fraco e precisará, com o tempo, pisar em cada vez mais gente para poder suprir seu medo de não ter poder. Agora, se você deseja intelecto sempre se sentirá um estúpido, uma fraude, que estará sempre na iminência de descobrirem que todos os seus diplomas não significam nada. Fazemos isso naturalmente, cada um de nós. Isso é a parte mais desconfortável de tudo, é que esse nosso erro de fabricação é nosso modo padrão de observar a vida, e isso não é bom ou mau. Isso simplesmente ocorre de forma inconsciente e não existe solução para isso.

A frase do filme que eu falei acima no texto pode ter muitas leituras, mas certamente uma das interpretações que eu mais gosto, por enquanto, é essa. Isso porque ela nos faz pensar não que somos criados achando que seremos rockstars e etc, mas sim que nós somos criados sendo o centro do nosso mundo e todas as nossas frustrações decorrem do fato de não entendermos muito bem que nós não somos o centro do mundo. E isso é ótimo e está tudo bem, pois assim nosso único compromisso é conosco, sem audiências, sem planos, sem metas, somente viver e descobrir a vida.


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