Lucas Thedim

Curfew, um novo olhar sobre a depressão

Como o curta Curfew, com sua beleza e inovação, nos mostra um ponto de vista diferente sobre a depressão, nos fazendo repensar como nos portamos frente uma das doenças mais comuns do século e como nos relacionamos uns com os outros hoje em dia.


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Como a internet pode ser algo fantástico, usando da forma correta, esse instrumento tão vazio e ao mesmo tempo tão cheio de vida, podemos descobrir coisas incríveis, coisas que não tínhamos noção que poderiam existir. Porem às vezes, mas só de vez em quando, nós temos a oportunidade de ver algo que é extraordinariamente simples, mas mesmo assim com uma profundidade que perpassa o normal.

Hoje, por acidente, acabei entrando em uma experiência dessas, encontrei na internet um verdadeiro achado, um curta metragem feito em 2012 chamado “Curfew”. Esse pequeno filme nos coloca no mundo de Richie, que recebe uma ligação enquanto estava se suicidando na banheira da sua casa. Ele, que havia acabado de abrir seus pulsos na banheira, se vê na obrigação de ir buscar a sua sobrinha de 9 anos, Sophia, pois sua irmã não tinha ninguém melhor para deixar ela.

Curfew, filmado em Nova York, nos conta a historia de um tio e sua sobrinha. No tempo psicológico de Richie, somos levados por cantos inusitados da cidade, enquanto ele tem que cuidar de Sophia. Logo de inicio, sentimos a situação extremamente desconfortável de ver o desejo de Richie conhecer melhor sua sobrinha, mas também temos do outro lado um homem que se perdeu nas drogas e depressão, que estava dando um final para o seu sofrimento, mas que apesar de tudo nutria um carinho enorme por Sophia.

Esse filme está repleto de cenas ousadas e belíssimas, mas sem duvidas a cena mais bonita do filme ocorre no boliche, quando Sophia ao ouvir sua musica favorita, começa a dançar sozinha pelo boliche enquanto o resto todo, aos poucos, começa a acompanhar a sua dança, quase como um clipe de musica levemente surreal. Essa cena poética e ousada nos diz muito sobre Richie, ela nos passa uma sensação terrível de isolamento. Vemos nesse momento como ele deve se sentir o tempo todo, tão preso na sua luta interna que não consegue mais ser capaz de se sentir feliz, tão distante que já não tem forças para participar de pequenos momentos da vida, que ele percebe que são alegres, mas que não consegue sentir dessa forma.

Esse isolamento anacrônico nos faz sentir uma confusão que nos atordoa, pois apesar da cena ser visualmente linda, não conseguimos sair completamente do estado de agonia que Richie se encontra, vemos nesse momento uma pessoa que ele sentiu falta, percebemos que tomar conta de Sophia dá a ele um propósito novo de vida. Aquele velho telefone vermelho deixa de ser somente um telefone e ganha um sentido novo, ele passa a ser um feixe de alegria no cotidiano tão sem esperança e sombrio de Richie.

Porem, sem mais nem menos, somos puxados desse momento tão peculiar, e ate mesmo levemente prazeroso, quando estávamos quase nos esquecendo da tentativa de suicídio de Richie, e somos lembrados desse episodio da maneira mais dolorosa, sua sobrinha vendo, por acidente, seus cortes. Nesse momento, sentimos a vergonha que richie sente por sua sobrinha ter visto aquilo, sentimos a decepção dele por ter estragado aquele momento agradável que estava vivendo com ela e isso nos coloca de volta no estado melancólico do inicio do filme.

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Já na primeira cena dessa película, podemos perceber a sua qualidade. E vou te dizer, se fazer bons filmes é difícil, fazer curtas é ainda mais complicado, isso porque em curtas você se vê obrigado a secar a sua história até o essencial. E ai que reside o problema, como criar personagens tão cheios de subjetividade quando você tem o tempo contra você? Como expressar de forma simples e com poucos diálogos uma história tão complexa e rica quanto a que foi imaginada?

O filme, que consegue ser ao mesmo tempo tocante e extremamente simples, nos leva em uma viagem entre a vida e a morte, dentro dos devaneios e lembranças de Richie, que com a sua pureza, nos coloca muitas vezes em situações engraçadas, entre a tragédia e a comédia. No filme, vemos uma alma torturada, mas que mesmo assim carrega consigo uma beleza e uma fragilidade incríveis. O filme termina nos deixando com esse gosto meio amargo na boca e a sensação que mesmo tudo continuando completamente sem esperança, toda a vida dele ganhou um sentido novo, simplesmente porque tinha conseguido algo tão simples quanto refazer um laço familiar perdido.

O que Curfew tem de trágico ele carrega de belo, a forma inovadora que o filme nos comunica o mundo interno do seu personagem principal nos faz reavaliar toda a ideia que temos de pessoas deprimidas, ele nos faz perceber como é doloroso entrar nesse estado de melancolia tão profunda que nada mais consegue tocar em você, que mesmo quando você vê todos alegres, você continua ali, meio cinza, sem ninguém realmente se dar conta da sua situação, só porque ela não é realmente física. Ele nos mostra o motivo de muitas vezes acabarmos nos refugiando em vícios para poder dar um basta na situação tão dolorosa que é acordar todo dia de manhã e ter que produzir algo quando já não temos mais matéria prima para fazer isso, ele mostra o porquê às vezes essas pessoas entram em um ciclo autodestrutivo tão grande.

A grande mensagem desse filme acaba sendo o obvio, mas que ninguém percebe na vida real porque todos estão correndo rápido demais para poder parar e prestar um pouco de atenção ao que nos rodeia. No filme, Sophia é cuidada por Richie, mas na realidade quem acaba sendo salvo é ele. Sempre achamos que essas questões são puramente químicas, ou que as pessoas não fazem o devido esforço para melhorar. Porem, muitas vezes ocorre algo pior, ninguém nem consegue perceber o sofrimento alheio, olhar para o outro hoje em dia tornou-se artigo de luxo, e talvez seja por isso que a depressão é uma das doenças mais comuns hoje em dia.


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